sexta-feira, 6 de março de 2009

De Buracos...


É uma arte acordar alguém. Os revisores de comboio têm, na sua tarefa diária de vistoria aos passageiros, a oportunidade de refinar essa arte. Um ligeiro toque no braço, um quase carinho.

Por mais leve que seja o movimento causa sempre sobressalto no espantar do sono e é numa náusea que se procura o bilhete para comprovar o direito à viagem descansada. Quando se acorda deixa-se o conforto de um buraco negro, onde não pesam ideias ou preocupações. Emergir à tona da realidade é um choque.

Os buracos são por definição vazios indicando a falta de algo. De razão, de bom-senso, de consciência, de dinheiro, de alcatrão... Nalguns casos pode o buraco ter falta disto tudo!

Na estrada de Sistelo para os Arcos há verdadeiras crateras a pôr em risco a segurança de quem lá passa. Covas que deixam ver os remendos mal-amanhados que consecutivamente se foram fazendo. São aqueles que não têm alternativa de percurso e que são obrigados a enfrentar o alcatrão esburacado que pagam pela falta de interesse e pela irresponsabilidade de quem tem o dever de zelar pela via. Pagam os do costume pelos erros dos que podem enterrar a cabeça na toca onde a culpa morre sempre solteira.

Os buracos podem-se tapar com afinco ou com desleixo. Na segunda hipótese o menos de alcatrão que se gasta significa mais dinheiro para o bolso. No rendilhado do país de burocracias e chicos-espertos, os euros escapam que nem areia entre os dedos para lado nenhum. Buracos negros na imensidão galáctica onde entidades estatais que deveriam supervisionar e sancionar lacunas são autoridades do vácuo, limitando-se aos relatórios enigmáticos que assinalam o buraco sem apontar quem o escavou.

Suspeito que haja na atmosfera deste país de navegadores um Grande Buraco que dá para a Terra do Nunca e que engole todos os embaraços envolvendo figuras mediáticas, tais Freeport e Casa Pia. Como com todos os pequenos buracos das estradas, não se lhes conhece a origem e mais vale não chafurdar no vazio para evitar choques fatais!

Enquanto a nação faz a viagem descansada do sono dos inocentes, ou dos que não querem saber, alargam-se as crateras, mas no hipnotismo das novelas e do futebol ninguém pensa na queda no abismo. Isto até que o despertador toque na irremediável hora de enfrentar o inevitável.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de  05 Março 2009]