quarta-feira, 29 de junho de 2011

Do Angélico sonho ao tédio

Lá se foi Angélico Vieira para o reino dos céus! É uma morte que me entristece na medida em que a morte é sempre desoladora, seja a de quem for. Recorda-nos a nossa própria mortalidade.

O cantor/actor não fazia parte da minha lista de admirações ou de gostos e não lhe sentirei a falta. Para os que gostavam dele o seu desaparecimento prematuro pode ser mais trágico do que a morte de um familiar próximo. É a morte de um sonho! A perda de um pouco da esperança e da magia que devem ter os dias.

Dos meus idos 14 anos tenho a imagem de cinco miúdas a chorarem desalmadamente a pretensa morte dos New Kids On The Block num acidente de aviação que nunca se deu (para desânimo de muitos!). É uma memória que lembro com graça e com o rubor do ridículo, mas a dor era então autêntica. Aqueles rapazes que nunca teríamos hipóteses de conhecer (e já o sabíamos naquela altura) representavam a ilusão de um mundo perfeito. A fantasia consumada do príncipe encantado. Perdê-los seria encontrar no lugar do sonho o terrível vazio da realidade cinzenta e ordinária e dos putos borbulhentos e desinteressantes. O tédio da vida dos comuns mortais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Na linha do fim do dia...


Há dias o comboio atropelou uma pessoa, uma chatice, pensamos todos os passageiros na pressa de chegar a casa após mais um dia de trabalho. Preocupados com o atraso que o incidente causaria, não nos ocorria pensar na pessoa decepada ao meio nos carris.

Foi só no dia seguinte que soube que tinha sido um homem o atropelado, casado, pai de um filho, confirmando-se que não tinha sido um acidente, mas um suicídio. Na mesma altura descobri que era alguém com quem me tinha cruzado e que tínhamos amigos em comum. E aquela morte nada acidental passou a ter um outro sentido.

Este homem era uma espécie de visionário da Internet, um génio para alguns, um louco para outros, simplesmente um chato para tantos. Pelos blogues encontram-se testemunhos falando daquilo que parecia um desfecho inevitável. Era uma alma intranquila e escolheu matar-se atravessando-se na linha do fim do dia que nos devolvia a casa. Terá sido a velocidade do nosso cronómetro de vida a mata-lo?

Na pressa do dia-a-dia nunca há tempo para nada! Corremos de tarefa em tarefa, de hora em hora com a sensação de que tudo está por cumprir. E esquecemo-nos muitas vezes de olhar interessadamente para quem nos está próximo, recusando ver as marcas de dor, o desalento. Centrados no nosso umbigo, nas contas por pagar, no trabalho, nos encargos comezinhos, resta-nos a confortável indiferença e é só isso que estamos dispostos a dar aos outros. Porque todas as nossas dificuldades nos parecem mais sérias e complicadas do que as de outrem, independentemente de ser verdade ou não.

Não nos lembramos - abafamos por conveniência - que o mais importante são as pessoas, aquelas que amamos, e que o nosso papel na terra passa também por fazer felizes os que tantas vezes contribuem para as nossas alegrias e tristezas. Não são os desconhecidos que nos ferem, mas os que nos atiram para o contentamento ou para o colo do conforto da pertença. A dor e o amor aninham-se sempre nas mãos de quem amamos. E são tantas as vezes em que nos magoamos mutuamente, disparando todas as raivas e frustrações, os cansaços e as tensões, todo o mal que nos aflige e que guardado no peito nos mataria. Alguns sucumbem mesmo a esse peso, não sabendo cumprir os instintos primários - gritar, chorar, abraçar.

A ideia de se meter à frente de um comboio já terá surgido a mais do que àqueles que a põem em prática. Quem nunca pensou nisso não percebe como é que se pode escolher uma morte tão violenta. Só imaginar um corpo esmagado nos trilhos da linha já dói! Quando alguém se decide a acto tão brutal será por padecer de uma dor maior. E há dores que porventura ninguém, nenhum ombro acolhedor ou antibiótico podem curar.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 de Abril de 2009]

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ministras das causas perdidas

Paula Teixeira da Cruz e Assunção Cristas são as duas mulheres da praxe no governo de Passos Coelho. O novo primeiro-ministro inova com o executivo mais jovem de sempre, mas repete o velho hábito de não se apostar nas qualidades femininas.

As duas escolhidas são ambas formadas em Direito e esperam-nas assuntos desde há muito tortos.

Paula Teixeira da Cruz assume o ministério da Justiça com o pesado fardo de credibilizar o poder judicial, além de dirigir as necessárias reformas no sentido de uma Justiça menos morosa e mais eficaz na aplicação da Lei. Isto num país onde candidatos a futuros juízes apanhados no “copianço” são primeiramente premiados com um 10 de nota e, posteriormente, depois do caso divulgado nas televisões, beneficiados com a repetição dos exames. Quando é a própria magistratura que confirma que o crime compensa, está tudo dito!

Assunção Cristas é a super-ministra da Agricultura, do Ambiente, do Mar e do Ordenamento do Território. A ex-professora universitária de apenas 36 anos terá que provar o que vale em áreas praticamente esquecidas nos últimos anos. As medidas tomadas no âmbito de vertentes tão importantes da vida sócio-económica do país vêm sendo meros rendilhados sem uma estratégia sólida e concreta. Logo se saberá se ela terá visão para alinhavar esse fundamental novelo de acção.

Mas numa altura de profunda crise, e com a necessária contenção financeira, não se poderá esperar que venha das mãos de Assunção a salvação para o tecido agrícola produtivo do país ou para o renascimento do interior. Isto depois de sucessivos executivos que ignoraram por completo o definhamento da agricultura e a deserção dos jovens das aldeias serranas e que nada fizeram para defender uma das actividades por excelência de um país à beira-mar plantado. Na verdade, pescadores e agricultores são espécies em vias de extinção! E não se augura uma poção mágica para que de repente as gentes corram em força de volta aos campos e aos barcos.

Dos ministérios do Ambiente poderemos eventualmente esperar mais ventoínhas eólicas espanholas nos montes, de resto a escassez de dinheiro passará, como sempre, as questões da protecção do planeta para segundo plano. E quanto ao Ordenamento do Território, parece missão impossível ordenar o que há tantos anos vem sendo desordenado!

Não é a qualidade e a aptidão das senhoras ministras que está em causa. O problema é a pesada herança de negligência que carregam dos seus antecessores. Ingrato presente o de Passos Coelho!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Super-mulheres


Há uma filósofa francesa, Elisabeth Badinter, que está a causar polémica no seu país por defender no livro "O conflito, a mulher e a mãe" que as mulheres dos nossos dias são vítimas de uma «revolução silenciosa» que trouxe um retrocesso nas mentalidades, obrigando-as a abdicarem da carreira para serem super-mães. Às mulheres portuguesas exige-se-lhes que sejam super-mulheres!

Não podendo abdicar da carreira pelos filhos, mesmo que o quisessem, por causa do baixo nível dos salários e da falta de apoio do Estado para o efeito, a portuguesa mulher moderna não tem que ser apenas uma mãe exímia, atenta, informada, sempre presente, mas espera-se que seja ainda uma profissional competente, pro-activa, com um rendimento sem mácula, e também se conta com uma esposa ou companheira prendada e dedicada, uma dona de casa eficaz e mais, uma figura elegante e sensual. Quantas mulheres numa só!

Diz-se que hoje em dia os homens já ajudam nas tarefas domésticas... Sim, ajudam! Põem o lixo na rua, arrumam a mesa quando os pais lá vão a casa, cozinham na visita dos sogros e lavam a louça no dia de anos dela. A máquina de roupa é o único mecanismo electrónico que não sabem controlar e o ferro de passar é um objecto alienígena que não conhecem! A esfregona é interdita a másculas mãos e a piaçaba um horizonte longínquo que nunca tocaram. Sim, eles vão ajudando, quando lá vão os amigos e é preciso dar um ar de modernidade.

Às mulheres cabe ainda essa responsabilidade considerada menor de coordenar a vida doméstica. O ninho continua a ser domínio quase restrito delas, onde eles vão dando uma mão para segurar as pontas. A elas pedem-se-lhes todos os sacrifícios porque ser mulher é sinónimo de merecido sofrimento desde que Eva trincou a maçã. E elas condescendem, porque é preciso manter a casa e os filhos às costas. E não há verdadeiramente tempo para a revolta. Entre as panelas e a roupa sujas, entre as birras das crianças e os lamentos dos maridos, entre as contas e os trocos que restam, o que fica para elas? A culpa por não serem capazes de fazer tudo na perfeição, como se lhes é exigido. Essa culpa também justiçada no paraíso em todas as Evas do mundo.

A culpa pelos problemas dos filhos. A culpa pelos casamentos desfeitos. A culpa pelas faltas ao trabalho nas doenças dos filhos. A culpa pelas idas ao trabalho apesar das maleitas dos filhos. A culpa pelo guisado esturrado porque se estava a lavar louça e a fazer o arroz ao mesmo tempo. Culpada! Culpada pelos quilos a mais nunca perdidos desde a gravidez. Culpada pelas rugas e cabelos brancos crescentes que não se podem esconder. Culpada perante o empregador que só vê uma mãe que não trabalhará para além do horário por ter que ir buscar a filha à creche. Culpada! Culpada por toda a eternidade pelo pecado original de ser mulher.

[Publicada no jornal Notícias dos Arcos de 04 Março 2010]

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um novo Portugal... ou nem tanto...

Regresso a estas páginas após longa ausência motivada por afazeres profissionais no amanhecer de um novo Portugal! Ou então, é mais um acordar para o mesmo fado...

Passos Coelho ganhou as eleições, como se esperava, não conseguindo a desejada maioria absoluta. Uma meia vitória conquistada à custa dos ódios alimentados por José Sócrates: foi mais para escorraçarem o engenheiro do poleiro do que por confiança no ex-jotinha do PSD que muitos votaram no novo chefe do governo.

Mas no bulício destas eleições os grandes vencedores são Paulo Portas e o seu CDS/PP. O Paulinho das feiras catapulta-se, mais uma vez, para o governo depois de uma campanha em que usou a mestria habitual no trato com as pessoas comuns e o domínio costumeiro das artes de encantar os média.

Para lá dos votos contados, regista-se de novo a abstenção como factor que sobressai dos actos eleitorais dos últimos tempos. Entre os mais de 9 milhões de inscritos votaram somente cerca de 5 milhões. Uma abstenção próxima dos 60 por cento, como de resto se registou em 2009 nas anteriores legislativas.

E se é certo que alguns escolheram mesmo não aparecer para deixarem a sua cruz no boletim de voto, entre tantos abstencionistas muitos não moram já neste país. Nas contas eleitorais não entram os portugueses emigrados e que, mesmo tendo saído da pátria, nunca desapareceram dos cadernos de recenseamento. Conheço alguns que estão nestas condições e temo que nos próximos tempos mais lhes sigam as pisadas. Restar-nos-á outra saída para a crise?

Os próximos tempos serão duros, já sabemos, mesmo sem o mafarrico Sócrates! Aquilo que talvez tenha escapado a alguns daqueles que votaram no PSD em detrimento do PS é que o futuro está traçado pelo FMI e pela União Europeia no acordo que os dois partidos, e o PP, assinaram. Há medidas incontornáveis e se o governo não as cumprir só se vai agravar ainda mais o cenário.

Os milhões emprestados são uma esmola envenenada e todos teremos que a pagar, mesmo que não tenhamos culpa nenhuma do buraco em que o país está enterrado. Como sempre, doerá mais às vítimas do costume - os que menos fizeram para o miserável estado presente - do que aos endinheirados. E uns ficarão cá para lutar contra as adversidades e contra a desesperança que mina a ideia de que vêm aí dias melhores. Outros não terão outra tábua de salvação que não a emigração, repetindo-se a velha história dos nossos pais obrigados a fugirem à fome. 

[Artigo publicado no jornal Notícias dos Arcos de 09 de Junho de 2011]