Há dias o comboio atropelou uma pessoa, uma chatice, pensamos todos os passageiros na pressa de chegar a casa após mais um dia de trabalho. Preocupados com o atraso que o incidente causaria, não nos ocorria pensar na pessoa decepada ao meio nos carris.
Foi só no dia seguinte que soube que tinha sido um homem o atropelado, casado, pai de um filho, confirmando-se que não tinha sido um acidente, mas um suicídio. Na mesma altura descobri que era alguém com quem me tinha cruzado e que tínhamos amigos em comum. E aquela morte nada acidental passou a ter um outro sentido.
Este homem era uma espécie de visionário da Internet, um génio para alguns, um louco para outros, simplesmente um chato para tantos. Pelos blogues encontram-se testemunhos falando daquilo que parecia um desfecho inevitável. Era uma alma intranquila e escolheu matar-se atravessando-se na linha do fim do dia que nos devolvia a casa. Terá sido a velocidade do nosso cronómetro de vida a mata-lo?
Na pressa do dia-a-dia nunca há tempo para nada! Corremos de tarefa em tarefa, de hora em hora com a sensação de que tudo está por cumprir. E esquecemo-nos muitas vezes de olhar interessadamente para quem nos está próximo, recusando ver as marcas de dor, o desalento. Centrados no nosso umbigo, nas contas por pagar, no trabalho, nos encargos comezinhos, resta-nos a confortável indiferença e é só isso que estamos dispostos a dar aos outros. Porque todas as nossas dificuldades nos parecem mais sérias e complicadas do que as de outrem, independentemente de ser verdade ou não.
Não nos lembramos - abafamos por conveniência - que o mais importante são as pessoas, aquelas que amamos, e que o nosso papel na terra passa também por fazer felizes os que tantas vezes contribuem para as nossas alegrias e tristezas. Não são os desconhecidos que nos ferem, mas os que nos atiram para o contentamento ou para o colo do conforto da pertença. A dor e o amor aninham-se sempre nas mãos de quem amamos. E são tantas as vezes em que nos magoamos mutuamente, disparando todas as raivas e frustrações, os cansaços e as tensões, todo o mal que nos aflige e que guardado no peito nos mataria. Alguns sucumbem mesmo a esse peso, não sabendo cumprir os instintos primários - gritar, chorar, abraçar.
A ideia de se meter à frente de um comboio já terá surgido a mais do que àqueles que a põem em prática. Quem nunca pensou nisso não percebe como é que se pode escolher uma morte tão violenta. Só imaginar um corpo esmagado nos trilhos da linha já dói! Quando alguém se decide a acto tão brutal será por padecer de uma dor maior. E há dores que porventura ninguém, nenhum ombro acolhedor ou antibiótico podem curar.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 de Abril de 2009]