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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um novo Portugal... ou nem tanto...

Regresso a estas páginas após longa ausência motivada por afazeres profissionais no amanhecer de um novo Portugal! Ou então, é mais um acordar para o mesmo fado...

Passos Coelho ganhou as eleições, como se esperava, não conseguindo a desejada maioria absoluta. Uma meia vitória conquistada à custa dos ódios alimentados por José Sócrates: foi mais para escorraçarem o engenheiro do poleiro do que por confiança no ex-jotinha do PSD que muitos votaram no novo chefe do governo.

Mas no bulício destas eleições os grandes vencedores são Paulo Portas e o seu CDS/PP. O Paulinho das feiras catapulta-se, mais uma vez, para o governo depois de uma campanha em que usou a mestria habitual no trato com as pessoas comuns e o domínio costumeiro das artes de encantar os média.

Para lá dos votos contados, regista-se de novo a abstenção como factor que sobressai dos actos eleitorais dos últimos tempos. Entre os mais de 9 milhões de inscritos votaram somente cerca de 5 milhões. Uma abstenção próxima dos 60 por cento, como de resto se registou em 2009 nas anteriores legislativas.

E se é certo que alguns escolheram mesmo não aparecer para deixarem a sua cruz no boletim de voto, entre tantos abstencionistas muitos não moram já neste país. Nas contas eleitorais não entram os portugueses emigrados e que, mesmo tendo saído da pátria, nunca desapareceram dos cadernos de recenseamento. Conheço alguns que estão nestas condições e temo que nos próximos tempos mais lhes sigam as pisadas. Restar-nos-á outra saída para a crise?

Os próximos tempos serão duros, já sabemos, mesmo sem o mafarrico Sócrates! Aquilo que talvez tenha escapado a alguns daqueles que votaram no PSD em detrimento do PS é que o futuro está traçado pelo FMI e pela União Europeia no acordo que os dois partidos, e o PP, assinaram. Há medidas incontornáveis e se o governo não as cumprir só se vai agravar ainda mais o cenário.

Os milhões emprestados são uma esmola envenenada e todos teremos que a pagar, mesmo que não tenhamos culpa nenhuma do buraco em que o país está enterrado. Como sempre, doerá mais às vítimas do costume - os que menos fizeram para o miserável estado presente - do que aos endinheirados. E uns ficarão cá para lutar contra as adversidades e contra a desesperança que mina a ideia de que vêm aí dias melhores. Outros não terão outra tábua de salvação que não a emigração, repetindo-se a velha história dos nossos pais obrigados a fugirem à fome. 

[Artigo publicado no jornal Notícias dos Arcos de 09 de Junho de 2011]


quinta-feira, 20 de maio de 2010

Com a benção do Papa e do Benfica...

Coincidência ou não, o governo decidiu aumentar os impostos na ressaca da festa do título do Benfica e na semana em que o Papa visitou Portugal. Com a benção da fé e dos benfiquistas, quase passou despercebida a maldade de José Sócrates (com o devido assentimento "culpado" de Passos Coelho)...

Não haveria melhor altura do que esta para anunciar aquilo que o governo socialista prometeu não fazer: aumentar os impostos! Com o povo adormecido na benção de Bento XVI e ainda a festejar o feito de Jesus no comando do Benfica. De resto, neste povo de "brandos costumes", e o ministro da Economia logo o disse numa entrevista a um canal de televisão norte-americano, não se esperariam grandes revoltas. Quando está em causa irem-lhe descaradamente aos bolsos, o português queixa-se, mas segue em frente. Só mesmo a religião e o clube do coração para causarem revoluções!

Há mais indignação com o casamento homossexual promulgado contra vontade por Cavaco Silva, medida que só diz respeito a quem é homossexual e quer casar, do que com a decisão do governo de aumentar o IVA em um por cento, até nos produtos de primeira necessidade, como o pão. Homossexuais ou não, todos comemos pão!

José Sócrates explicou que é preciso fazer um «esforço colectivo» para atravessar esta crise. Ora o pão custa mais a quem ganha menos do que a quem ganha mais! O Zé Povinho já anda com o cinto ao pescoço, estrangulado pelas dívidas e pela falta de dinheiro para as suportar, será justificável pedirem-se-lhe mais sacrifícios? Não é! Não é aceitável que os pobres de nós carreguemos com a nação empobrecida às costas enquanto as classes políticas e os abençoados da sociedade vão gerindo menos lucros e sacudindo as migalhas de culpa do capote pelo "buraco" económico do país.

Olhando para a vizinha Espanha vemos o primeiro-ministro José Luis Zapatero anunciar o corte de 15 por cento nos rendimentos dos membros do governo. Tão diferente esta Ibéria socialista...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 20 Maio 2010]
 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Condenados a torcer por Sócrates


Sou fã de José Sócrates. Não é que ache que o primeiro-ministro vai salvar o nosso berço há tantos anos à deriva. Mas aprecio a postura altiva e arrogante do homem.

José Sócrates faz parte de uma nova geração de políticos impecavelmente bem vestidos e com ar sedutor. Não chega aos calcanhares de um Nicolas Sarkozy que, depois de uma bela Cécile conquistou a não menos bonita Carla Bruni, mas o nosso "primeiro" tem uma namorada (diz-se, uma jornalista subitamente mediatizada e contestada) e parece que até vai casar no Verão, convenientemente antes das próximas eleições legislativas. Não se inibe de suar pelo sovaco como o povinho, descendo ao plano dos mortais humanos, quando faz o seu jogging ou participa em mini-maratonas que são notícia na televisão. E gosta de mandar calar jornalistas com a polida argumentação "deixe-me acabar", o que só se pode aplaudir quando alguns vestem a capa de inquisidor-mor.

No governo do país age com uma prepotência que estranha em terras de brandos costumes. Ora Sócrates pode dar-se com conforto ao pecado da arrogância por não ter ninguém à altura do seu peso político. Não há no PS, muito menos no PSD, quem lhe faça sombra, o que lhe dá a segurança dos monarcas e uma legitimação popular tão divina quanto a dos reis.

Nem o caso Freeport e a suspeita de ter aceitado subornos para aprovar a obra quando ainda era ministro do Ambiente afectam o seu poder uno e indivisível. Haverá poucos, ou mesmo ninguém, a acreditarem na inocência do primeiro-ministro, mas nesta nação de pecadores, quem nunca errou que atire a primeira pedra...

Na verdade ocupar cargos públicos significa em Portugal deixar-se corromper, é esse o senso comum alimentado por muitos autarcas e governantes sem remorsos ou escrúpulos. Seja Sócrates inocente ou culpado foi à partida condenado na praça pública, mas desde que não tenha roubado o Benfica está tudo bem! Afinal todos "mamam" e seja como for ficam sempre os mesmos a chuchar no dedo!

No fim das contas, quando o caso Freeport acabar, como todos os que causam embaraço a "figurões", sem condenados, arquivado nas profundezas de uma justiça que a miúdo vai perdendo credibilidade, Sócrates ganhará o direito democrático de perpetuar o seu governo por mais um mandato e no PSD nova batalha se encetará na busca do líder certo.

Sócrates é fatalmente a única alternativa que temos. E o preocupante não é termos que o aturar por uns bons anos, mas não haver outro rosto a quem confiar a esperança. Atravessaremos esta crise com Sócrates, rezemos para que no epílogo da história não se fale dele como do engenheiro das obras perdidas.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 14 Maio 2009]