No Natal da minha
infância, o Pai Natal era figura irrelevante. Nem me lembro de acreditar nessa
personagem que hoje domina o universo de fantasia das crianças.
Nesses dias da
inocência, era o Menino Jesus quem entregava as prendas. Sabíamos bem, eu e os
meus irmãos, que eram os nossos pais quem nos presenteavam com algo fora do
comum naquele dia especial. Porque, não como agora, só havia presentes naquele
dia e doces e guloseimas.
O Natal era o tempo de
todo o açúcar, pois no resto do ano os nossos pais não nos permitiam tanta
gulodice. E não havia miúdos obesos! Brincávamos na rua, caíamos, esfolávamos
os joelhos e continuávamos como se nada fosse. Trepávamos a árvores e a muros
demasiado altos e de modos extraordinariamente perigosos e partíamos braços e
pernas, mas não fazia mal. Era assim crescer.
Hoje em dia, os miúdos
confinam-se ao lar, perante todos os perigos do exterior. Brincam dentro das
suas casas, os pais não os deixam correr demasiado depressa para não se
magoarem, à mínima queda correm para as urgências e as árvores e os muros são
obstáculos que é preciso contornar.
Os miúdos deste tempo
já parecem nascer sem a ingenuidade que nos animava nos dias da minha infância.
São muito mais perspicazes quanto ao mundo em seu redor. Nós, os putos de
antanho, só tínhamos um canal de televisão e não havia a Internet para nos
abrir os olhos para tudo o que não tínhamos. Não sonhávamos com prendas de
Natal porque não éramos aliciados pela enxurrada de publicidade que invade a
quadra, não estávamos sujeitos à lavagem cerebral que molda os desejos de todas
as crianças a massa informe e sem vontade própria. Tínhamos fisgas de pau e
brincávamos com bolotas e éramos felizes criando os nossos mundos de fantasia.
Éramos tão puros como a
imagem do Menino Jesus no presépio. Despojados na singeleza que deve rimar com
a infância. E penso verdadeiramente que éramos mais felizes do que os putos do
presente. Mais autenticamente crianças! E no Natal vivíamos realmente esse
espírito da época, sem esperar presentes, apenas ansiando a magia de uns
chocolates, nas meias penduradas à lareira, e uma noite mais longa do que o
habitual, em que as birras e brigas típicas de irmãos se adiavam. Eis a minha
memória saudosa do irrecuperável Natal dessa meninice tão distante.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 20-12-2012]