sábado, 10 de janeiro de 2009

Ano Novo, Velhos Vícios


Ano Novo, Vida Nova, diz-se. Para o Zé Povinho a ladainha é infelizmente sempre a mesma. Repetem-se ciclicamente as preocupações e são as desculpas do costume que vêm à tona apaziguar as bocas.

2009 é ano de crise e ainda por cima de eleições! Já se sente no ar o cheiro da carnificina que aí vem. Os partidos espicaçam-se na praça pública na busca do maior tempo de antena possível. Degladiam-se os políticos enquanto mães e pais esgravatam pão para os filhos.

As crises têm por vezes o dom de mudar drasticamente a ordem dos dias. E espera-se que depois desta, que baterá com toda a força neste novo ano, o império do capitalismo sofra sérias alterações. Seria preciso que as mudanças não fossem só de forma, mas fundamentalmente de substância. É talvez tempo de curar também a crise de valores que se vem arrastando a par do consumismo.

Viveu-se até agora na leveza de um dia-a-dia sem amanhã, aproveitando-se a máxima do "Carpe Diem" enquanto é tempo. Comprar casa nova, trocar de carro, mudar o sofá da sala ainda mal gasto, renovar o guarda-roupa, arranjar um plasma vistoso, ir de férias para Cuba fazendo inveja aos amigos com o bronze fora-de-tempo. "Luxos" que se tornarão impossíveis para alguns no período vindouro.

O medo do que aí vem refreia já os ânimos gastadores. Mas apesar dos receios poucos terão ainda pensado na possibilidade de nada voltar a ser o que era. Poucos estarão decididos a conter os bolsos numa perspectiva de longo prazo. Esperam que a crise vá como veio, num ímpeto, de um telejornal para o outro. Há quem vaticine que a famigerada crise está aí para durar. Quanto tempo lhe poderemos resistir com esperança de que a ilusão da fartura volte?

Em ano de eleições autárquicas podemos contar com benesses despropositadas e com presidentes de Câmara que, à boleia da democracia, se recandidatam eternamente na pretensão de manterem o reinado. Há coisas que nunca mudam e será sempre a irresponsabilidade da política, feita à medida dos egos engravatados, a marcar o compasso.

Aos que pagam sempre as favas reserva-se um "poder do voto" cada vez mais esvaziado de sentido. Que poder há na escolha entre o mau e o pior? Não há verdadeiramente alternativas que ressuscitem a fé na democracia. E sem fé restar-nos-á o quê? Há as novelas da TVI, o futebol cada vez menos ao domingo e os Gato Fedorento para animar a malta!

[Publicado no Jornal Notícias dos Arcos de 08 Janeiro 2009]