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quarta-feira, 6 de julho de 2011

O culpado é o dinheiro!

- Eu se puder faço tudo para prejudicar o estado e trabalho para o estado! 

A frase assim deitada ao ar, na pureza da sua verdade, implode acima do burburinho do comboio. Na cara de quem a solta nenhuma vergonha nem sentido de culpa. O português típico caracteriza-se pela chico-espertice e a frase que ouvi da boca de um desconhecido só espanta pela sua assunção em público (bem portuguesa é também a hipocrisia!). E se nos insurgimos contra os que fogem ao fisco, contra o mau serviço da Função Pública e os tachos e padrinhos e afilhados, sabemos no íntimo que seríamos capazes do mesmo, isto se não estamos já dentro do nefasto sistema prevaricador.

Um estudo recente indicava os portugueses como recordistas na fuga aos impostos na Zona Euro. À nossa frente só os eslovacos. Só não fogem os que não podem – os pobres de nós que ganhamos menos. E com os recentes aumentos no IVA, só se pode esperar o crescimento da economia paralela que já representa um volume de negócios da ordem dos 33 mil milhões de euros. Se esses trocos contassem no saldo da crise…

O Estado é uma entidade abstracta, assim uma espécie de padrasto tirano! Quando é hora de exigir os direitos constitucionalmente consagrados cá estamos todos para pôr a boca no trombone. No momento de apresentar contas dos deveres que cabem a cada um de nós só damos convictamente o lamento por a isso sermos obrigados. Esta coisa do Estado Social só faz sentido na medida em que nos beneficie e desde que não nos vá demasiado ao bolso.

“[…] O culpado é o dinheiro, sempre o dinheiro: tê-lo ou não tê-lo, enquanto subsistir, ninguém se salva”. Cesare Pavese escreve-o n´A Lua e as Fogueiras, onde dita ainda que a miséria “animaliza os homens”. Já sabemos o que nos espera na pira da crise dos próximos tempos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um novo Portugal... ou nem tanto...

Regresso a estas páginas após longa ausência motivada por afazeres profissionais no amanhecer de um novo Portugal! Ou então, é mais um acordar para o mesmo fado...

Passos Coelho ganhou as eleições, como se esperava, não conseguindo a desejada maioria absoluta. Uma meia vitória conquistada à custa dos ódios alimentados por José Sócrates: foi mais para escorraçarem o engenheiro do poleiro do que por confiança no ex-jotinha do PSD que muitos votaram no novo chefe do governo.

Mas no bulício destas eleições os grandes vencedores são Paulo Portas e o seu CDS/PP. O Paulinho das feiras catapulta-se, mais uma vez, para o governo depois de uma campanha em que usou a mestria habitual no trato com as pessoas comuns e o domínio costumeiro das artes de encantar os média.

Para lá dos votos contados, regista-se de novo a abstenção como factor que sobressai dos actos eleitorais dos últimos tempos. Entre os mais de 9 milhões de inscritos votaram somente cerca de 5 milhões. Uma abstenção próxima dos 60 por cento, como de resto se registou em 2009 nas anteriores legislativas.

E se é certo que alguns escolheram mesmo não aparecer para deixarem a sua cruz no boletim de voto, entre tantos abstencionistas muitos não moram já neste país. Nas contas eleitorais não entram os portugueses emigrados e que, mesmo tendo saído da pátria, nunca desapareceram dos cadernos de recenseamento. Conheço alguns que estão nestas condições e temo que nos próximos tempos mais lhes sigam as pisadas. Restar-nos-á outra saída para a crise?

Os próximos tempos serão duros, já sabemos, mesmo sem o mafarrico Sócrates! Aquilo que talvez tenha escapado a alguns daqueles que votaram no PSD em detrimento do PS é que o futuro está traçado pelo FMI e pela União Europeia no acordo que os dois partidos, e o PP, assinaram. Há medidas incontornáveis e se o governo não as cumprir só se vai agravar ainda mais o cenário.

Os milhões emprestados são uma esmola envenenada e todos teremos que a pagar, mesmo que não tenhamos culpa nenhuma do buraco em que o país está enterrado. Como sempre, doerá mais às vítimas do costume - os que menos fizeram para o miserável estado presente - do que aos endinheirados. E uns ficarão cá para lutar contra as adversidades e contra a desesperança que mina a ideia de que vêm aí dias melhores. Outros não terão outra tábua de salvação que não a emigração, repetindo-se a velha história dos nossos pais obrigados a fugirem à fome. 

[Artigo publicado no jornal Notícias dos Arcos de 09 de Junho de 2011]


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Natal em tempos de crise


É tempo de Natal, tempo de compras desenfreadas. Centros comerciais e lojas apinhados de gente. Ninguém diria que há pr'aí uma crise...

Natal é Natal e o bacalhau há-de se pôr na mesa seja como for. Alheias à economia combalida do mundo, correm prendas em embrulhos natalícios. A ferida só deverá arder a alguns depois da ceia, quando já não houver dinheiro para o Ano Novo. Porque esta é a quadra do gastar. Comprar, comprar, comprar.

As prendas tomaram conta do Natal e não parece possível recuperar o espírito que deveria definir a época. O consumismo é a nova ordem do mundo. O Ter dita o modo como somos tratados pelos demais. Quem nada possui, não merece sequer um olhar de compaixão.

De manhã cedo há sem-abrigos ainda a dormir, se se pode realmente dormir na rua com tanto frio, à porta de lojas, cobertos com mantas ou embalagens de cartão. Passamos ao lado, apressados, tropeçando nesses sem-nada sem hesitar um segundo, pensando na próxima prenda a dar a quem já tem tudo. Contamos trocos e às vezes deixamos cair uma moeda insignificante na palma de uma mão pedinte suja. Quem dá o que pode a mais não é obrigado, diz-se. Não é verdade! Temos todos o dever de fazer mais. Dar uma esmola é o mais fácil, o melhor para quem a dá, não necessariamente para quem a recebe. Que conforto se compra ou que fome se mata com um euro ou dois?

As esmolas, os Rendimentos Mínimos e Subsídios "ad eternum" não são benéficos, nem para a sociedade, nem para quem os recebe. Propiciam uma dependência da pena alheia que não permite ou incentiva a saída do "buraco". Diz a parábola que, em vez de dar o peixe, se deve ensinar a pescar, e essa é a preocupação que deve primar numa sociedade que lida com a pobreza. Mas é certo que a miséria alheia é um conforto para a maioria e para os que a governam. Valoriza a vida de quem tem o mínimo e facilita o mando dos governantes que ganham votos atirando migalhas aos pobres.

Em 2009, ao que indicam as previsões económicas, estaremos todos mais pobres. Dizem que o novo ano terá consequências "terríveis" para a economia mundial, quando o impacto da famigerada crise atingir finalmente os bolsos das pessoas. Os miseráveis, que nada ou pouco têm, continuarão na sua saga de tristeza, enquanto os remediados, como de costume, serão os condenados a custear as turbulências financeiras.

Talvez o desenfreamento das compras natalícias faça afinal mais sentido neste do que em outros anos. Ninguém sabe o que nos espera no virar do calendário. Que se goze estão o melhor bacalhau da quadra esperando-se no sapatinho inspiração para afrontar as batalhas que aí vêm. 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 18 Dezembro 2008]

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Com a benção do Papa e do Benfica...

Coincidência ou não, o governo decidiu aumentar os impostos na ressaca da festa do título do Benfica e na semana em que o Papa visitou Portugal. Com a benção da fé e dos benfiquistas, quase passou despercebida a maldade de José Sócrates (com o devido assentimento "culpado" de Passos Coelho)...

Não haveria melhor altura do que esta para anunciar aquilo que o governo socialista prometeu não fazer: aumentar os impostos! Com o povo adormecido na benção de Bento XVI e ainda a festejar o feito de Jesus no comando do Benfica. De resto, neste povo de "brandos costumes", e o ministro da Economia logo o disse numa entrevista a um canal de televisão norte-americano, não se esperariam grandes revoltas. Quando está em causa irem-lhe descaradamente aos bolsos, o português queixa-se, mas segue em frente. Só mesmo a religião e o clube do coração para causarem revoluções!

Há mais indignação com o casamento homossexual promulgado contra vontade por Cavaco Silva, medida que só diz respeito a quem é homossexual e quer casar, do que com a decisão do governo de aumentar o IVA em um por cento, até nos produtos de primeira necessidade, como o pão. Homossexuais ou não, todos comemos pão!

José Sócrates explicou que é preciso fazer um «esforço colectivo» para atravessar esta crise. Ora o pão custa mais a quem ganha menos do que a quem ganha mais! O Zé Povinho já anda com o cinto ao pescoço, estrangulado pelas dívidas e pela falta de dinheiro para as suportar, será justificável pedirem-se-lhe mais sacrifícios? Não é! Não é aceitável que os pobres de nós carreguemos com a nação empobrecida às costas enquanto as classes políticas e os abençoados da sociedade vão gerindo menos lucros e sacudindo as migalhas de culpa do capote pelo "buraco" económico do país.

Olhando para a vizinha Espanha vemos o primeiro-ministro José Luis Zapatero anunciar o corte de 15 por cento nos rendimentos dos membros do governo. Tão diferente esta Ibéria socialista...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 20 Maio 2010]
 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De responsabilidade e solidariedade...


A União Europeia (UE) disponibiliza à Grécia um empréstimo de 30 mil milhões de euros, caso o país solicite ajuda financeira. Da fatia global cabe ao pobre Portugal um montante de 774 milhões, o que dá 77 euros do bolso de cada português. Mas afinal, quando Portugal também está em risco de bancarrota, temos assim tanto dinheiro para emprestar aos gregos?

Na verdade, não temos, não podemos recusar participar nesta ajuda precisamente por não o termos. Portugal arrisca-se seriamente a passar por uma situação semelhante à da Grécia e por isso ajuda, porque precisará que os parceiros comunitários lhe atirem a bóia da salvação se a batida da desgraça lhe chegar à porta. A bancarrota é uma séria ameaça! E perguntamo-nos, nós a quem os milhões de toda esta problemática pouco dizem, como chegamos a isto?!

Os conceitos de «responsabilidade e solidariedade» são citados como motivação para a ajuda aos gregos em nome da «estabilidade financeira» da Zona Euro. Na hora em que se exigem tais "fardos" aos cidadãos europeus, é caso para perguntar onde têm andado a «responsabilidade» e a «solidariedade» quando a Europa continua a mover-se a várias velocidades, com tão díspares realidades económicas. Como pode um português que ganha um salário mínimo de 400 e tal euros entender que deve ajudar um país onde o salário mínimo é de quase 700 euros?!

A «solidariedade» da comunidade europeia trouxe a Portugal milhões e milhões de euros desde que entramos na CEE há mais de 20 anos. Por que buracos se perdeu esse dinheiro... 

Os últimos dados do Eurostat relativos a 2007 indicam que a região norte ficou mais pobre relativamente à média da UE. E isto são estudos efectuados antes da famigerada crise, as análises a 2008 e 2009 revelarão certamente um empobrecimento ainda maior. Que «responsabilidade» assumem os governantes nacionais e locais por esta tragédia? Por cá a culpa morre sempre solteira e só pesa nas costas do Zé Povinho, há muito enterrado na bancarrota e tendo como única perspectiva de sair do poço o Euromilhões.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 15 Abril 2010]

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Esperança precisa-se!


Sacrifícios, é o que nos pedem os governantes em tempos de crise. Sacrifícios e sacrifícios... Não é já hora de serem os governantes a dar o exemplo?

Na Irlanda o combate à crise económica faz-se com cortes salariais aos funcionários públicos e com o primeiro-ministro a dar o exemplo reduzindo o seu salário em 20 por cento. Os ministros sofreram uma redução salarial de 15 por cento. Poder-se-á alegar que é pouco e que não fará grande mossa nos rendimentos dos visados, mas não deixa de ser assinalável quando é caso raro os poderosos abdicarem de privilégios em prol do bem comum.

Por cá o Orçamento de Estado prevê o congelamento dos salários da Admninistração Pública como medida para pôr as contas em ordem. E o nosso "primeiro" José Sócrates pede-nos mais sacrifícios! Sacrifícios e sacrifícios... Mais abnegação na vidinha miserável da grande maioria dos portugueses. Não sabe claramente o engenheiro do que está a falar. Não o sabe no conforto do seu ordenado de primeiro-ministro, imune à inflacção na armadura dos fatos Armani.

O Conselho das Comunidades Portuguesas anunciou uma nova vaga de emigração semelhante à ocorrida nos anos 1960, a era da "mala de cartão". Nunca desde essa altura foram tantos os portugueses a fugir do país como agora, procurando escapar ao desemprego e aos salários miseráveis. São sobretudo os jovens licenciados ou com qualificações que abandonam uma pátria que empobreceu a classe média.

Na verdade, pertencer à classe média é hoje estar no primeiro patamar da pobreza, não tendo direito a subsídios ou apoios estatais, pagando impostos e recebendo em troca listas de espera nos hospitais e nas creches. É a classe que paga realmente pela crise, carregando às costas todos os aumentos, menos o do salário.

Em tempos claramente complicados não ficaria nada mal aos que nos governam dar o exemplo. Nem que fosse só para ficar bem nos compêndios da história! Quando se fala na necessidade de moralizar a política, há momentos ideais como estes para isso. Até para surpreender! Porque ninguém acredita que os nossos ministros e deputados deixariam que a crise lhes fosse ao bolso... É por não acreditar que a juventude qualificada atravessa as fronteiras da pátria em busca de esperança.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 04 Fevereiro 2010]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Fatos novos no espelho das roupas rotas


Era uma manhã gelada e três polícias de volta de um homem no patamar de uma loja. O homem vestia um casaco demasiado usado, da cor indefinida da sujidade entranhada há tempo sem conta. Fazia aquilo com uma estranha dignidade enquanto era despejado da miserável cama onde tinha passado a noite insuportavelmente fria.

No chão ainda os cartões de papel onde se tinha estendido no sono estremunhado dos tristes sem casa. Muito longe de tudo aquilo os transeuntes apressados enquanto os polícias exerciam a vil autoridade de despojar um homem de toda a humanidade. Uma das fardas estava mais afastada, encostada ao carro, com ar ausente, vestida por pessoa porventura envergonhada na mesquinha missão imposta por ordem engavetada e distante da aprovação alheia.

É preciso varrer a porcaria para debaixo do tapete antes que os turistas acordem e vejam a cidade com as suas feridas expostas. A pobreza não é cartão de visita que venda. Escandalosamente deitada à porta das lojas não rende. A culpa mora nos olhos de quem gasta o dinheiro na vaidade e se confronta com a penúria de quem nem para comer tem. Os fatos novos no espelho das roupas rotas... A prosperidade perante a queda no abismo...

É o início de um Novo Ano e já nos dizem que vai ser terrível! Um 2010 de mais crise quando muitos estão perto do limite. É o medo a palavra de toque que nos guia as pisadas e que nos faz olhar para o lado contrário quando um mendigo se cruza no nosso caminho. Mais vale não ver o mal do mundo que sempre nos pode calhar na roda da fortuna da economia. Mas mesmo com os olhos fechados todos sabemos que ele lá está e que a qualquer momento nos pode atingir...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 07 Janeiro 2010]