segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Natal em tempos de crise


É tempo de Natal, tempo de compras desenfreadas. Centros comerciais e lojas apinhados de gente. Ninguém diria que há pr'aí uma crise...

Natal é Natal e o bacalhau há-de se pôr na mesa seja como for. Alheias à economia combalida do mundo, correm prendas em embrulhos natalícios. A ferida só deverá arder a alguns depois da ceia, quando já não houver dinheiro para o Ano Novo. Porque esta é a quadra do gastar. Comprar, comprar, comprar.

As prendas tomaram conta do Natal e não parece possível recuperar o espírito que deveria definir a época. O consumismo é a nova ordem do mundo. O Ter dita o modo como somos tratados pelos demais. Quem nada possui, não merece sequer um olhar de compaixão.

De manhã cedo há sem-abrigos ainda a dormir, se se pode realmente dormir na rua com tanto frio, à porta de lojas, cobertos com mantas ou embalagens de cartão. Passamos ao lado, apressados, tropeçando nesses sem-nada sem hesitar um segundo, pensando na próxima prenda a dar a quem já tem tudo. Contamos trocos e às vezes deixamos cair uma moeda insignificante na palma de uma mão pedinte suja. Quem dá o que pode a mais não é obrigado, diz-se. Não é verdade! Temos todos o dever de fazer mais. Dar uma esmola é o mais fácil, o melhor para quem a dá, não necessariamente para quem a recebe. Que conforto se compra ou que fome se mata com um euro ou dois?

As esmolas, os Rendimentos Mínimos e Subsídios "ad eternum" não são benéficos, nem para a sociedade, nem para quem os recebe. Propiciam uma dependência da pena alheia que não permite ou incentiva a saída do "buraco". Diz a parábola que, em vez de dar o peixe, se deve ensinar a pescar, e essa é a preocupação que deve primar numa sociedade que lida com a pobreza. Mas é certo que a miséria alheia é um conforto para a maioria e para os que a governam. Valoriza a vida de quem tem o mínimo e facilita o mando dos governantes que ganham votos atirando migalhas aos pobres.

Em 2009, ao que indicam as previsões económicas, estaremos todos mais pobres. Dizem que o novo ano terá consequências "terríveis" para a economia mundial, quando o impacto da famigerada crise atingir finalmente os bolsos das pessoas. Os miseráveis, que nada ou pouco têm, continuarão na sua saga de tristeza, enquanto os remediados, como de costume, serão os condenados a custear as turbulências financeiras.

Talvez o desenfreamento das compras natalícias faça afinal mais sentido neste do que em outros anos. Ninguém sabe o que nos espera no virar do calendário. Que se goze estão o melhor bacalhau da quadra esperando-se no sapatinho inspiração para afrontar as batalhas que aí vêm. 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 18 Dezembro 2008]

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Com a benção do Papa e do Benfica...

Coincidência ou não, o governo decidiu aumentar os impostos na ressaca da festa do título do Benfica e na semana em que o Papa visitou Portugal. Com a benção da fé e dos benfiquistas, quase passou despercebida a maldade de José Sócrates (com o devido assentimento "culpado" de Passos Coelho)...

Não haveria melhor altura do que esta para anunciar aquilo que o governo socialista prometeu não fazer: aumentar os impostos! Com o povo adormecido na benção de Bento XVI e ainda a festejar o feito de Jesus no comando do Benfica. De resto, neste povo de "brandos costumes", e o ministro da Economia logo o disse numa entrevista a um canal de televisão norte-americano, não se esperariam grandes revoltas. Quando está em causa irem-lhe descaradamente aos bolsos, o português queixa-se, mas segue em frente. Só mesmo a religião e o clube do coração para causarem revoluções!

Há mais indignação com o casamento homossexual promulgado contra vontade por Cavaco Silva, medida que só diz respeito a quem é homossexual e quer casar, do que com a decisão do governo de aumentar o IVA em um por cento, até nos produtos de primeira necessidade, como o pão. Homossexuais ou não, todos comemos pão!

José Sócrates explicou que é preciso fazer um «esforço colectivo» para atravessar esta crise. Ora o pão custa mais a quem ganha menos do que a quem ganha mais! O Zé Povinho já anda com o cinto ao pescoço, estrangulado pelas dívidas e pela falta de dinheiro para as suportar, será justificável pedirem-se-lhe mais sacrifícios? Não é! Não é aceitável que os pobres de nós carreguemos com a nação empobrecida às costas enquanto as classes políticas e os abençoados da sociedade vão gerindo menos lucros e sacudindo as migalhas de culpa do capote pelo "buraco" económico do país.

Olhando para a vizinha Espanha vemos o primeiro-ministro José Luis Zapatero anunciar o corte de 15 por cento nos rendimentos dos membros do governo. Tão diferente esta Ibéria socialista...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 20 Maio 2010]
 

sexta-feira, 30 de abril de 2010

De Greves

Abril foi o mês das greves! Foram agendadas 28 greves e 19 manifestações para o mês que finda. É a revolta contra as políticas do governo, particularmente contra o congelamento dos salários decretado para a Função Pública. Quem é que não quer afinal ganhar mais? Eu bem queria, mas nem greve posso fazer para o gritar aos ouvidos de quem não tem nada a ver com isso...

As greves angustiam-me, as que me afectam directamente e complicam a minha "vidinha"! Quando quero deslocar-me para o meu local de trabalho, com os olhos ramelosos do pouco sono, perturba-me não ter comboio à hora estipulada. Porque terei eu que levar com as reivindicações dos funcionários da CP quando já paguei o meu passe e não tenho culpas pelas suas angústias e nem qualquer poder de decisão relativamente ao que eles ganham ou às horas que trabalham?! Não é apenas injusto, é absurdo que milhares de pessoas sejam afectadas pelos protestos de determinadas classes profissionais.

São, é certo, uma conquista de Abril, direito e liberdade consagrados na democracia, mas as greves são também mecanismos de insustentável paralização de uma sociedade. Em áreas estratégicas, como os transportes, têm consequências graves na economia, promovendo uma quebra de produtividade e milhões de euros de prejuízos. Poder-se-á aceitar que uma classe tenha tamanho peso na dinâmica de uma cidade, de um país?

Eu não posso fazer greve - como poderiam os jornalistas fazer greve: quem daria a notícia? Trabalho no sector privado e o mais que posso fazer é queixar-me de ganhar pouco, mas pianinho... E por isso não posso devotar solidariedade àqueles que usam e abusam da greve como forma de pressão para verem os seus interesses particulares garantidos. Como poderei eu entender que os senhores pilotos da TAP, que ganham em média 8600 euros brutos por mês, façam greve para ganharem mais mil euros?! No caso destes nem sequer foi preciso fazer greve, bastou a ameaça para conseguir, senão os mil, mais alguns euros para o bolso.

As greves são cada vez mais instrumentos do corporativismo, usando a maior medida do desconforto causada ao Zé Povinho como veículo para atingirem os seus fins. Os grevistas raramente são os que realmente têm razões de queixas e condições laborais quase esclavagistas, esses trabalham e não podem piar... E por isso a sua legitimidade vem-se perdendo, são vistas por quem não as pode fazer como pretextos para a preguiça, para se "baldar" ao trabalho. É preciso por isso encontrar outras formas de protesto que se reflictam mais justamente nos verdadeiros culpados e menos nos pobres dos coitados que nada mais podem do que ir trabalhar.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 29 Abril 2010]

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De responsabilidade e solidariedade...


A União Europeia (UE) disponibiliza à Grécia um empréstimo de 30 mil milhões de euros, caso o país solicite ajuda financeira. Da fatia global cabe ao pobre Portugal um montante de 774 milhões, o que dá 77 euros do bolso de cada português. Mas afinal, quando Portugal também está em risco de bancarrota, temos assim tanto dinheiro para emprestar aos gregos?

Na verdade, não temos, não podemos recusar participar nesta ajuda precisamente por não o termos. Portugal arrisca-se seriamente a passar por uma situação semelhante à da Grécia e por isso ajuda, porque precisará que os parceiros comunitários lhe atirem a bóia da salvação se a batida da desgraça lhe chegar à porta. A bancarrota é uma séria ameaça! E perguntamo-nos, nós a quem os milhões de toda esta problemática pouco dizem, como chegamos a isto?!

Os conceitos de «responsabilidade e solidariedade» são citados como motivação para a ajuda aos gregos em nome da «estabilidade financeira» da Zona Euro. Na hora em que se exigem tais "fardos" aos cidadãos europeus, é caso para perguntar onde têm andado a «responsabilidade» e a «solidariedade» quando a Europa continua a mover-se a várias velocidades, com tão díspares realidades económicas. Como pode um português que ganha um salário mínimo de 400 e tal euros entender que deve ajudar um país onde o salário mínimo é de quase 700 euros?!

A «solidariedade» da comunidade europeia trouxe a Portugal milhões e milhões de euros desde que entramos na CEE há mais de 20 anos. Por que buracos se perdeu esse dinheiro... 

Os últimos dados do Eurostat relativos a 2007 indicam que a região norte ficou mais pobre relativamente à média da UE. E isto são estudos efectuados antes da famigerada crise, as análises a 2008 e 2009 revelarão certamente um empobrecimento ainda maior. Que «responsabilidade» assumem os governantes nacionais e locais por esta tragédia? Por cá a culpa morre sempre solteira e só pesa nas costas do Zé Povinho, há muito enterrado na bancarrota e tendo como única perspectiva de sair do poço o Euromilhões.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 15 Abril 2010]

sexta-feira, 26 de março de 2010

Velhas histórias...


Há dias o país acordou chocado com o alegado suicídio de um miúdo de 12 anos que se terá atirado ao rio por ser vítima de violência dos colegas na escola. «A primeira vítima mortal de bullying em Portugal», anunciou-se com pompa!

Neste momento já não é certo que o rapaz de Mirandela se tenha atirado ao rio com a intenção de morrer, mas o bullying continua como tema a preencher páginas de jornais e debates televisivos. Até porque entretanto houve um professor que se atirou de uma ponte por alegadamente não aguentar as agressões verbais que sofria dos alunos na sala de aula.

São infelizmente velhas histórias, só o termo bullying é que é novo. Já no meu tempo - começo a ter alguns cabelos brancos que me permitem dizê-lo assim - havia violência na escola, entre alunos e professores, entre colegas. Havia as "ovelhas negras" mal comportadas que perturbavam as aulas, havia bulhas com sangue, cabeças e vidros partidos no recreio, só não havia pedo-psiquiatras e tantos jornalistas para analisar os casos. 

Na altura tudo aquilo era encarado como normal, como se fizesse parte do ritual necessário do crescimento para a entrada na vida adulta. Os pais eram chamados à escola e indignavam-se, mas voltavam para casa com os filhos sem questionarem ou pensarem nas consequências do que lhes acontecia na escola. Hoje também é assim nalguns casos, mas para os que se esquecem há sempre um canal com um especialista iluminado a discorrer a teoria das maleitas para toda a vida.

É claro que o modo como se passa pela escola define irremediavelmente o futuro de cada qual. Não se pode ser vítima de agressões contínuas sem ficar afectado por isso. Como não se pode conviver com a violência diariamente, em casa, nos transportes públicos, na televisão, na confusão do trânsito, nos locais de trabalho, sem se carregar esse peso.

Vivemos numa sociedade de violências extremas, físicas e psicológicas. Não é estranho que essa violência alastre para as escolas. Crianças e adolescentes são o espelho mais cruel, porque mais autêntico, da realidade. Esboços inacabados, absorvem todas as influências, boas ou más. E nenhum adulto pode descartar as suas responsabilidades, nem os pais, nem os professores, nem cada um de nós que diariamente nos movemos na indiferença já calejados com a crueza dos dias.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 Março 2010]