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sexta-feira, 30 de abril de 2010

De Greves

Abril foi o mês das greves! Foram agendadas 28 greves e 19 manifestações para o mês que finda. É a revolta contra as políticas do governo, particularmente contra o congelamento dos salários decretado para a Função Pública. Quem é que não quer afinal ganhar mais? Eu bem queria, mas nem greve posso fazer para o gritar aos ouvidos de quem não tem nada a ver com isso...

As greves angustiam-me, as que me afectam directamente e complicam a minha "vidinha"! Quando quero deslocar-me para o meu local de trabalho, com os olhos ramelosos do pouco sono, perturba-me não ter comboio à hora estipulada. Porque terei eu que levar com as reivindicações dos funcionários da CP quando já paguei o meu passe e não tenho culpas pelas suas angústias e nem qualquer poder de decisão relativamente ao que eles ganham ou às horas que trabalham?! Não é apenas injusto, é absurdo que milhares de pessoas sejam afectadas pelos protestos de determinadas classes profissionais.

São, é certo, uma conquista de Abril, direito e liberdade consagrados na democracia, mas as greves são também mecanismos de insustentável paralização de uma sociedade. Em áreas estratégicas, como os transportes, têm consequências graves na economia, promovendo uma quebra de produtividade e milhões de euros de prejuízos. Poder-se-á aceitar que uma classe tenha tamanho peso na dinâmica de uma cidade, de um país?

Eu não posso fazer greve - como poderiam os jornalistas fazer greve: quem daria a notícia? Trabalho no sector privado e o mais que posso fazer é queixar-me de ganhar pouco, mas pianinho... E por isso não posso devotar solidariedade àqueles que usam e abusam da greve como forma de pressão para verem os seus interesses particulares garantidos. Como poderei eu entender que os senhores pilotos da TAP, que ganham em média 8600 euros brutos por mês, façam greve para ganharem mais mil euros?! No caso destes nem sequer foi preciso fazer greve, bastou a ameaça para conseguir, senão os mil, mais alguns euros para o bolso.

As greves são cada vez mais instrumentos do corporativismo, usando a maior medida do desconforto causada ao Zé Povinho como veículo para atingirem os seus fins. Os grevistas raramente são os que realmente têm razões de queixas e condições laborais quase esclavagistas, esses trabalham e não podem piar... E por isso a sua legitimidade vem-se perdendo, são vistas por quem não as pode fazer como pretextos para a preguiça, para se "baldar" ao trabalho. É preciso por isso encontrar outras formas de protesto que se reflictam mais justamente nos verdadeiros culpados e menos nos pobres dos coitados que nada mais podem do que ir trabalhar.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 29 Abril 2010]

sábado, 15 de novembro de 2008

De crise e de lucro fácil...


Há dias os "patrões" revoltaram-se contra o governo por ter decidido aumentar o ordenado mínimo para 450 euros em 2009. Mais 25 euros na conta dos pobres empregados. Uma fortuna concerteza!

Os representantes do patronato logo vieram ameaçar com despedimentos, queixando-se de tamanho escândalo! Senhores engravatados, sem calo nas mãos, sem terem que esticar os trocos ganhos no suor do trabalho, acham certamente que 425 euros é um salário digno. Interesseiros na sua condição de empresários, pensam no lucro acima de toda a humanidade. Quando analisam os gráficos estatísticos sobre a produtividade ainda se espantam com os baixos índices de rendimento dos seus trabalhadores. Têm mais do que merecem, na verdade, por uns parcos 400 euros e tal.

É inacreditável a imoralidade entranhada entre altos responsáveis do país. Não há ética e pior, não há vergonha! Como pode alguém ir à Televisão insurgir-se contra um aumento que mantém o salário mínimo nacional em níveis de miséria?! Se compararmos com os nossos "irmãos" da União Europeia, temos em Espanha e Grécia um ordenado mínimo da ordem dos 600 e tal euros, ou de mais de mil euros nos casos de França, Holanda e Luxemburgo. Nós estamos no patamar "terceiro mundista".

Alegam os "patrões" que as pequenas e médias empresas poderão ficar em dificuldades com o aumento de 25 euros. As que realmente estão em condições tão fragilizadas não se salvarão de qualquer modo, haja ou não aumento do salário mínimo. Os tempos que aí vêm serão de crise aguda, dizem os mesmos especialistas que não conseguiram prever esta fase complicada. Durante 2009 se fará a triagem entre quem tem estaleca para aguentar a tempestade e quem não resistirá ao embate.

Como sempre, o Zé Povinho há-de levar com todos os males, mas prevê-se que a intempérie chegue também aos mais endinheirados. É porventura isso que já vai preocupando os "patrões"...

Entretanto, o governo decidiu "salvar" o Banco Português de Negócios (BPN) que estava em risco de falência por causa de operações ilegais que levaram a perdas superiores a 700 milhões de euros. Um valente "buraco" só agora "descoberto" por causa da crise. Valha-nos a crise para apurar os podres da nação...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 13 Novembro 2008]

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tachos em nome do povo!


Em tempos de crise económica, importa perguntar se precisaremos de tantos deputados! Com a "disciplina partidária" tomada como método generalizado, para que servem os 230 "representantes do povo" na Assembleia da República?

Há dias foi notícia o facto de Manuel Alegre ter quebrado a "disciplina de voto" imposta pelo PS na votação do projecto do casamento dos homossexuais. Uma ovelha tresmalhada no rebanho! Noutros Partidos também é comum "disciplinar" os deputados em defesa de uma ou outra posição global de acordo com as "cores" políticas. Ora, se cada um dos 230 deputados eleitos à Assembleia da República vota segundo os "ditados" do seu Partido, porque haveremos de sustentar os ordenados de tantos?! Bastaria um representante por Partido com assento Parlamentar, um porta-voz de cada um que teria um peso diferente conforme o número de votos contados nas eleições.

Os "representantes do povo" (leia-se ironicamente!) representam verdadeiramente os seus Partidos, depois dos seus próprios interesses. Talvez se possa falar de uma inversão no caso do PCP, onde, por exemplo, Jerónimo de Sousa entrega 3 mil euros dos cerca de 3800 que ganha ao Partido Comunista. Nos restantes Partidos os salários vão inteiramente para os bolsos dos deputados, apesar da "disciplina partidária"...

Um deputado tem como salário-base 3708 euros, podendo além disso receber outros subsídios, nomeadamente de transporte se tiver residência fora de Lisboa. Deste modo o ordenado pode estender-se até aos 6 mil euros! É um bom emprego concerteza.

Lembro-me de um dos "quadros" do programa de humor da RTP1, "Os Contemporâneos", em que se caricatura uma deputada que se queixa do trabalho que dá ora levantar, ora sentar, ora bater palmas aos seus, ora apupar os "adversários"... Na verdade a maioria dos deputados só serve para isso mesmo! Há ainda umas Comissões onde alguns participam estudando, analisando, observando, meditando sobre tudo e nada.

Os que falam no Parlamento são sempre os mesmos, os mais mediáticos, os que têm o "dom da palavra"! Quase sempre as discussões da Assembleia giram entre um "pentágono" de figuras dos cinco Partidos representados, em trocas de graçolas que se assemelham a disputas de garnisés na capoeira. Fazem birras como putos no recreio que ofendem o voto do povo. Talvez por isso cada vez menos portugueses votem. São "tachos" que se tentam legitimar nas urnas.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 23 Outubro 2008]