Há um homem que lê contos em voz alta num comboio. É de manhã bem cedo e os viajantes exibem caras de sono, olham o vazio ou miram pela janela a paisagem. O leitor, numa voz colocada de actor, desfia um texto de Herberto Hélder sobre a indiferença. E é indiferentes que os passageiros o ouvem.
Vão pensando no trabalho que os aguarda, arranhando o dia que começa com um olhar apático. Ninguém quer saber do esforço que o homem faz para se ouvir na barulheira da viagem. A ninguém sensibiliza a circunstância de um completo estranho se dar ao trabalho de embalar a manhã de quem madrugou para apanhar o comboio.
Evita-se o contacto directo com o leitor, olhando-se de esguelha para os seus sapatos, as suas unhas, o boné que lhe aconchega a cabeça. Há quem tenha alguma pena deste homem, sozinho no meio do corredor, encostado ao rebordo de um banco para se equilibrar no bambolear da carruagem. E há quem nem o tenha visto no absoluto desinteresse que a rotina diária alimenta.
É com esta mesma indiferença que é encarado o mendigo de barbas brancas que, sentado em frente a uma loja de roupa cara, pede esmola com um sobretudo roto e sujo. Na apatia olha-se o mais possível em frente evitando confrontar o olhar com o sem-abrigo que dorme, com a cabeça enfiada num caixote de papel, mesmo à entrada de uma loja de decoração.
É na indiferença pelos outros que corre a vidinha de todos os dias! As horas preenchidas no mesmo passo apressado, na contagem dos minutos que faltam ou que passaram, na lamúria pelas contas que se acumulam, os salários que não engordam e os governos que se repetem desgovernados. Com o rolar monocórdico do comboio, flui o queixume inconsequente.
Andamos todos um pouco adormecidos, ensonados por dentro e por fora. Olhamos com desdém o rico que esbanja o tanto que não temos e maldizemos o pobre que nos perturba com a sua miséria. Miseráveis vogamos na dormência das regras sociais, pensando sempre no que se pode ou não dizer, no parecer bem... Mas não queremos saber da dor alheia, da tristeza ou do sorriso de quem se senta ao nosso lado no comboio. Desviamos o olhar quando o passageiro em frente nos olha e olhamo-lo quando desvia os olhos de nós.
É um mal que se alastra como bolor pelas almas, que as torna intolerantes ao contacto e que as leva a apertar as mãos, num cumprimento, como quem segura um bule quente com dois dedos. É o aperto de mão de quem não se compromete. De quem não quer saber do carácter ou da moralidade e só quer ver os novelos do seu umbigo.
Nesta indiferença multiplicada surgem os doutores e engenheiros com ideias milagrosas para o país! E há fome e há desemprego e há desespero e oferecem-nos um Aeroporto para alimentar a esperança! Temos pontes novas, rotundas a pacote, cavalos sem patas e senhores feudais de chicote comandando-lhes o trote, alheios ao facto de não poderem dar um passo sequer.
Ninguém quer saber se há quem não tenha pão na mesa ou uma barraca ao menos para se abrigar do frio. Ninguém quer saber se um velho tropeça e parte a testa no passeio. A ninguém interessa o que aquele homem lê em voz alta na carruagem. Seria demasiado incómodo perceber que aquela história sobre almas sós que a ninguém interessam é também sobre nós.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 17 Janeiro 2008]