quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Democraticamente vai compensando o crime...


Pela primeira vez na história da nação temos um banqueiro detido. Oliveira e Costa está em prisão preventiva depois do escândalo do BPN, sendo suspeito do desvio de mais de 66 milhões de euros. Será porventura o "cabeça-de-manada" que é preciso flagelar para abafar o caso. Mas alguém acredita que será feita verdadeiramente justiça?

Em Fevereiro deste ano Oliveira e Costa divorciou-se convenientemente e passou todos os seus bens para o nome da esposa. Tanta "generosidade"! O ex-presidente do BPN abdica de todo o seu património em benefício daquela que foi a sua companheira durante mais de 40 anos. É pois um Oliveira e Costa subitamente "pobre" que está entre as grandes, embora numa cela VIP!

Há dias Fátima Felgueiras deixou o Tribunal em estado triunfal depois de ter sido condenada a 3 anos de prisão com pena suspensa (ou seja, não porá os "costados" na cadeia, embora tenha fugido para o Brasil!) e a uma multa de 2 mil euros. Percebe-se a euforia da senhora perante a "bondade" da justiça, já não se compreende a falta de vergonha! Ela foi condenada por ter usado o cargo de presidente da Câmara de Felgueiras em benefício próprio, mas nem assim deverá perder o mandato. No fim do julgamento o advogado da senhora falou aos jornalistas com lágrimas nos olhos, emocionado com a inacreditável benevolência do senhor juiz!

Daqui a uns meses, quando a tempestade amainar, Oliveira e Costa deverá regressar para o regaço da esposa endinheirada com o sorriso dos "inocentes"...

Oliveira e Costa foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva e Dias Loureiro, actual conselheiro de Estado do Presidente da República e ex-ministro do governo PSD, foi administrador da Sociedade que geria o BPN. Outros antigos ministros estiveram na gestão do Banco que foi nacionalizado com um "buraco" de 700 milhões de euros. Deste montante mais de 300 milhões dizem respeito a operações "clandestinas". É claro que agora ninguém sabe de nada!

Se fizéssemos uma "árvore" de todas as ligações entre políticos e ex-políticos com as empresas de maior peso na economia nacional, que tramas não poderíamos tecer...

Na política "em nome do povo" enriquece-se, seja durante, seja depois de terminar mandatos, depois de servir "interesses" que valem a entrada nas administrações das grandes empresas ou dos Bancos. Se nos devotássemos a contar o património de muitos daqueles que passaram pelas cadeiras do poder, antes e depois de aquecerem os lugares, poderíamos traçar o "mapa do tesouro"... 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 27 Novembro 2008]

sábado, 15 de novembro de 2008

De crise e de lucro fácil...


Há dias os "patrões" revoltaram-se contra o governo por ter decidido aumentar o ordenado mínimo para 450 euros em 2009. Mais 25 euros na conta dos pobres empregados. Uma fortuna concerteza!

Os representantes do patronato logo vieram ameaçar com despedimentos, queixando-se de tamanho escândalo! Senhores engravatados, sem calo nas mãos, sem terem que esticar os trocos ganhos no suor do trabalho, acham certamente que 425 euros é um salário digno. Interesseiros na sua condição de empresários, pensam no lucro acima de toda a humanidade. Quando analisam os gráficos estatísticos sobre a produtividade ainda se espantam com os baixos índices de rendimento dos seus trabalhadores. Têm mais do que merecem, na verdade, por uns parcos 400 euros e tal.

É inacreditável a imoralidade entranhada entre altos responsáveis do país. Não há ética e pior, não há vergonha! Como pode alguém ir à Televisão insurgir-se contra um aumento que mantém o salário mínimo nacional em níveis de miséria?! Se compararmos com os nossos "irmãos" da União Europeia, temos em Espanha e Grécia um ordenado mínimo da ordem dos 600 e tal euros, ou de mais de mil euros nos casos de França, Holanda e Luxemburgo. Nós estamos no patamar "terceiro mundista".

Alegam os "patrões" que as pequenas e médias empresas poderão ficar em dificuldades com o aumento de 25 euros. As que realmente estão em condições tão fragilizadas não se salvarão de qualquer modo, haja ou não aumento do salário mínimo. Os tempos que aí vêm serão de crise aguda, dizem os mesmos especialistas que não conseguiram prever esta fase complicada. Durante 2009 se fará a triagem entre quem tem estaleca para aguentar a tempestade e quem não resistirá ao embate.

Como sempre, o Zé Povinho há-de levar com todos os males, mas prevê-se que a intempérie chegue também aos mais endinheirados. É porventura isso que já vai preocupando os "patrões"...

Entretanto, o governo decidiu "salvar" o Banco Português de Negócios (BPN) que estava em risco de falência por causa de operações ilegais que levaram a perdas superiores a 700 milhões de euros. Um valente "buraco" só agora "descoberto" por causa da crise. Valha-nos a crise para apurar os podres da nação...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 13 Novembro 2008]

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tachos em nome do povo!


Em tempos de crise económica, importa perguntar se precisaremos de tantos deputados! Com a "disciplina partidária" tomada como método generalizado, para que servem os 230 "representantes do povo" na Assembleia da República?

Há dias foi notícia o facto de Manuel Alegre ter quebrado a "disciplina de voto" imposta pelo PS na votação do projecto do casamento dos homossexuais. Uma ovelha tresmalhada no rebanho! Noutros Partidos também é comum "disciplinar" os deputados em defesa de uma ou outra posição global de acordo com as "cores" políticas. Ora, se cada um dos 230 deputados eleitos à Assembleia da República vota segundo os "ditados" do seu Partido, porque haveremos de sustentar os ordenados de tantos?! Bastaria um representante por Partido com assento Parlamentar, um porta-voz de cada um que teria um peso diferente conforme o número de votos contados nas eleições.

Os "representantes do povo" (leia-se ironicamente!) representam verdadeiramente os seus Partidos, depois dos seus próprios interesses. Talvez se possa falar de uma inversão no caso do PCP, onde, por exemplo, Jerónimo de Sousa entrega 3 mil euros dos cerca de 3800 que ganha ao Partido Comunista. Nos restantes Partidos os salários vão inteiramente para os bolsos dos deputados, apesar da "disciplina partidária"...

Um deputado tem como salário-base 3708 euros, podendo além disso receber outros subsídios, nomeadamente de transporte se tiver residência fora de Lisboa. Deste modo o ordenado pode estender-se até aos 6 mil euros! É um bom emprego concerteza.

Lembro-me de um dos "quadros" do programa de humor da RTP1, "Os Contemporâneos", em que se caricatura uma deputada que se queixa do trabalho que dá ora levantar, ora sentar, ora bater palmas aos seus, ora apupar os "adversários"... Na verdade a maioria dos deputados só serve para isso mesmo! Há ainda umas Comissões onde alguns participam estudando, analisando, observando, meditando sobre tudo e nada.

Os que falam no Parlamento são sempre os mesmos, os mais mediáticos, os que têm o "dom da palavra"! Quase sempre as discussões da Assembleia giram entre um "pentágono" de figuras dos cinco Partidos representados, em trocas de graçolas que se assemelham a disputas de garnisés na capoeira. Fazem birras como putos no recreio que ofendem o voto do povo. Talvez por isso cada vez menos portugueses votem. São "tachos" que se tentam legitimar nas urnas.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 23 Outubro 2008]

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Mulheres do Século XXI

Nós, mulheres do Século XXI, não temos tempo para pensar! O intelecto não é o nosso domínio quando temos que ser mães perfeitas, esposas presentes e profissionais empenhadas. Os dias só nos permitem tarefas, responsabilidades, exigências. O mundo gira todo à nossa volta e temos pouco tempo para o olhar de fora, com a distância crítico-analítica que dá lugar às crónicas.

O fazer é o verbo do nosso domínio. Fazer as coisas corriqueiras que permitem a existência. Cozinhar, limpar, lavar, amamentar, parir... Aos homens reserva-se esse papel "maior" de pensar o mundo! De o definir e moldar à luz das suas vontades.

Nós, mulheres do Século XXI, somos ainda o "sexo fraco", sempre em segundo plano. As "grandes mulheres" atrás dos homens poderosos. A igualdade está longe de ser real. Em média os salários das mulheres são inferiores aos dos homens. Nos cargos de chefia domina o masculino e para lá chegarem as mulheres têm que provar diariamente, muito mais do que eles, que são merecedoras desse "poder". Na política temos um Parlamento de fatos e gravatas, um governo com as duas ministras da praxe, uma presidente de partido com um ar o menos possível feminino.

E espantamo-nos quando uma mulher grávida passa revista às tropas enquanto ministra da Defesa, como foi o recente caso da espanhola Carme Chacón que deixou o marido em casa com o filho de ambos para voltar ao seu posto no governo. Um caso noticiável porque é raro os homens abdicarem dos seus "privilégios" de chefes de família.

São tempos modernos, de tecnologias e progressos fenomenais, mas ainda os homens são os "caçadores" e as mulheres as "fadas-do-lar". Já há uns que dão uma "ajudinha" lá em casa, que cuidam dos filhos, mudam as fraldas, até cozinham e lavam a louça, mas a esfera da vida doméstica continua a ser da mulher. Ela é o centro dessa ordem interna. Muitas vezes esquecida como elemento exclusivo desse meio, quase sempre subestimada por esse papel fundamental e nunca respeitada pelo desdobramento milagroso.

Dentro de poucos anos espera-se que os cientistas desenvolvam um robô doméstico capaz de executar quase todas as tarefas do lar com mestria. Talvez então nós, mulheres do Século XXI, possamos "saltar" definitivamente do "ninho" familiar para o mundo e mudar verdadeiramente as coisas. 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 Setembro 2008]

sábado, 24 de maio de 2008

Médicos com a faca e o queijo na mão


Saiu há dias a notícia de que, em média, os oftalmologistas portugueses fazem duas operações por semana nos Hospitais públicos. Um número interessante, sobretudo depois de um médico espanhol, que passou há pouco por Portugal, ter feito 234 operações aos olhos em cinco dias!

Pelos telejornais, como uma nova moda, multiplicam-se as notícias de pessoas que viajam para Cuba para serem operadas às cataratas ou a outras maleitas dos olhos de simples trato. Não estamos a falar de intervenções complexas, mas de procedimentos médicos que se simplificaram e que se praticam com a mesma qualidade e eficácia por cá. E isto torna ainda mais estranho o caso. O país de Fidel, tão pobre em tanta coisa, a fazer o que numa nação europeia - na era do choque tecnológico! - não se consegue.

Mais extraordinário é que o pacote operação/viagem fica mais barato do que o recurso a uma clínica particular em Portugal. Aqui ao lado, na Espanha potência económica, é também menos custoso operar. Chegou-se até à conclusão, depois do encerramento de várias maternidades nas zonas de fronteira, que é menos dispendioso para o Serviço Nacional de Saúde suportar os gastos com o envio das grávidas para Badajoz do que pagar o seu internamento entre portas.

Nuestros hermanos parecem saber governar-se muito melhor do que nós. E ao que parece são mais dedicados ao trabalho! Não se pense que é por um espírito de missão que um espanhol opera 234 pessoas em cinco dias! Também não é necessariamente por preguiça que um português se dedica a duas singelas operações no mesmo período. É porque sabe que não há o risco de um médico-bom-samaritano vir romper a confortável média.

As listas de espera persistem gravosamente por não haver nenhum interesse na classe médica em resolver o problema. Quantas mais dificuldades na Saúde pública, mais clientes fogem para o sector privado e aí é só dinheiro a entrar. Até porque o corporativismo da classe não dá espaço a uma real concorrência de preços. Dir-se-á que os médicos têm a faca e o queijo na mão. Perigoso, sobretudo quando nós somos o queijo!

Convenhamos que não é fácil melhorar os índices de produtividade dos clínicos. Não é uma profissão que possa funcionar com o picar do ponto e tabelas de rendimento. Infelizmente, o humanismo que uma tal actividade requer parece perdido entre cifrões e valores a receber por horas extraordinárias. É preciso lembrar-lhes do Juramento de Hipócrates que tão convenientemente sabem citar quando lhes apraz.

Conheço a história de um médico, já falecido, que costumava deslocar-se às aldeias, nos tempos de antanho, e que fazia operações às cataratas nas bermas das estradas, sem com isso nada receber ou recebendo o que as pessoas queriam ou podiam dar-lhe. Não é esta generosidade que se pede aos médicos de hoje. Basta-lhes cumprirem interessadamente o princípio do "bem do doente" que Hipócrates determina.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de  22 Maio 2008]