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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Custa tanto ser pai sempre!

É um cabeleireiro. A mulher estica o cabelo enquanto o homem e os dois filhos aguardam.

A miúda tem cerca de 10 anos, o miúdo menos de 3 e a urgência de descoberta que não o deixa estar quieto. A essa pressa que gera a traquinice responde o pai com a passividade dos primeiros cabelos brancos que gritam por descanso. De pernas e braços cruzados, vai gritando ó gabriel, não faças isso, sai já daí, mas não se levanta do sofá onde se refastela e vai dizendo à cabeleireira que num dia o filho destruiria aquilo tudo.

Por três vezes a criança atira o cortinado mal colocado ao chão porque insiste em brincar com as suas mágicas tiras soltas. O pai diz vou ter que te bater e repete a ideia do terrível destruidor, sem nada fazer.

É a miúda que corre atrás do puto quando ele rebusca os rolos do cabelo e quando ela fica sentada na leveza da sua infância, o pai avisa-a, ainda vais apanhar tu pelo teu irmão. A mãe sempre inerte nas mãos experimentadas da cabeleireira apressada.

Custa tanto ser pai sempre! Mas é o que se é desde o momento em que os filhos nascem. Há quem fuja à responsabilidade, não por maldade, por urgência de escapar a esse peso que engole tudo o resto. Ser mãe, ser pai todos os dias cansa! É uma energia inesgotável a dos filhos felizes. E é felizes que os queremos e mais felizes são quanto mais de nós lhes damos.

Todos os pais sabem como se deviam educar os filhos dos outros. E todos sentem o avassalador embate do crítico olhar alheio. E todos também sabem que os miúdos não vêm com manuais de instruções e que nenhum é igual a outro sendo semelhantemente desafiantes. Mas deixamos a tolerância na gaveta com as peúgas rotas que não temos paciência ou tempo para coser.

E esquecemos, na teia do envelhecimento, que já fomos crianças e que o não pode ser palavra oca ou rastilho para mais uma traquinice. E fazemos por esquecer que ser pai é muito dizer não, e dizemos sim ou nim na paz do senhor porque ouvimos todos os nãos e percebemos finalmente como custa negar.

A vida é não ter, não poder, não ser – vive-se com o gosto do quase, do se e do perpétuo querer do que não se é ou não se tem. Custa tanto aceitá-lo e deixar que um filho o entenda é a forma permanente de o admitir.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 15 de Setembro de 2011]

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Super-mulheres


Há uma filósofa francesa, Elisabeth Badinter, que está a causar polémica no seu país por defender no livro "O conflito, a mulher e a mãe" que as mulheres dos nossos dias são vítimas de uma «revolução silenciosa» que trouxe um retrocesso nas mentalidades, obrigando-as a abdicarem da carreira para serem super-mães. Às mulheres portuguesas exige-se-lhes que sejam super-mulheres!

Não podendo abdicar da carreira pelos filhos, mesmo que o quisessem, por causa do baixo nível dos salários e da falta de apoio do Estado para o efeito, a portuguesa mulher moderna não tem que ser apenas uma mãe exímia, atenta, informada, sempre presente, mas espera-se que seja ainda uma profissional competente, pro-activa, com um rendimento sem mácula, e também se conta com uma esposa ou companheira prendada e dedicada, uma dona de casa eficaz e mais, uma figura elegante e sensual. Quantas mulheres numa só!

Diz-se que hoje em dia os homens já ajudam nas tarefas domésticas... Sim, ajudam! Põem o lixo na rua, arrumam a mesa quando os pais lá vão a casa, cozinham na visita dos sogros e lavam a louça no dia de anos dela. A máquina de roupa é o único mecanismo electrónico que não sabem controlar e o ferro de passar é um objecto alienígena que não conhecem! A esfregona é interdita a másculas mãos e a piaçaba um horizonte longínquo que nunca tocaram. Sim, eles vão ajudando, quando lá vão os amigos e é preciso dar um ar de modernidade.

Às mulheres cabe ainda essa responsabilidade considerada menor de coordenar a vida doméstica. O ninho continua a ser domínio quase restrito delas, onde eles vão dando uma mão para segurar as pontas. A elas pedem-se-lhes todos os sacrifícios porque ser mulher é sinónimo de merecido sofrimento desde que Eva trincou a maçã. E elas condescendem, porque é preciso manter a casa e os filhos às costas. E não há verdadeiramente tempo para a revolta. Entre as panelas e a roupa sujas, entre as birras das crianças e os lamentos dos maridos, entre as contas e os trocos que restam, o que fica para elas? A culpa por não serem capazes de fazer tudo na perfeição, como se lhes é exigido. Essa culpa também justiçada no paraíso em todas as Evas do mundo.

A culpa pelos problemas dos filhos. A culpa pelos casamentos desfeitos. A culpa pelas faltas ao trabalho nas doenças dos filhos. A culpa pelas idas ao trabalho apesar das maleitas dos filhos. A culpa pelo guisado esturrado porque se estava a lavar louça e a fazer o arroz ao mesmo tempo. Culpada! Culpada pelos quilos a mais nunca perdidos desde a gravidez. Culpada pelas rugas e cabelos brancos crescentes que não se podem esconder. Culpada perante o empregador que só vê uma mãe que não trabalhará para além do horário por ter que ir buscar a filha à creche. Culpada! Culpada por toda a eternidade pelo pecado original de ser mulher.

[Publicada no jornal Notícias dos Arcos de 04 Março 2010]

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Mulheres do Século XXI

Nós, mulheres do Século XXI, não temos tempo para pensar! O intelecto não é o nosso domínio quando temos que ser mães perfeitas, esposas presentes e profissionais empenhadas. Os dias só nos permitem tarefas, responsabilidades, exigências. O mundo gira todo à nossa volta e temos pouco tempo para o olhar de fora, com a distância crítico-analítica que dá lugar às crónicas.

O fazer é o verbo do nosso domínio. Fazer as coisas corriqueiras que permitem a existência. Cozinhar, limpar, lavar, amamentar, parir... Aos homens reserva-se esse papel "maior" de pensar o mundo! De o definir e moldar à luz das suas vontades.

Nós, mulheres do Século XXI, somos ainda o "sexo fraco", sempre em segundo plano. As "grandes mulheres" atrás dos homens poderosos. A igualdade está longe de ser real. Em média os salários das mulheres são inferiores aos dos homens. Nos cargos de chefia domina o masculino e para lá chegarem as mulheres têm que provar diariamente, muito mais do que eles, que são merecedoras desse "poder". Na política temos um Parlamento de fatos e gravatas, um governo com as duas ministras da praxe, uma presidente de partido com um ar o menos possível feminino.

E espantamo-nos quando uma mulher grávida passa revista às tropas enquanto ministra da Defesa, como foi o recente caso da espanhola Carme Chacón que deixou o marido em casa com o filho de ambos para voltar ao seu posto no governo. Um caso noticiável porque é raro os homens abdicarem dos seus "privilégios" de chefes de família.

São tempos modernos, de tecnologias e progressos fenomenais, mas ainda os homens são os "caçadores" e as mulheres as "fadas-do-lar". Já há uns que dão uma "ajudinha" lá em casa, que cuidam dos filhos, mudam as fraldas, até cozinham e lavam a louça, mas a esfera da vida doméstica continua a ser da mulher. Ela é o centro dessa ordem interna. Muitas vezes esquecida como elemento exclusivo desse meio, quase sempre subestimada por esse papel fundamental e nunca respeitada pelo desdobramento milagroso.

Dentro de poucos anos espera-se que os cientistas desenvolvam um robô doméstico capaz de executar quase todas as tarefas do lar com mestria. Talvez então nós, mulheres do Século XXI, possamos "saltar" definitivamente do "ninho" familiar para o mundo e mudar verdadeiramente as coisas. 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 Setembro 2008]