Há uma filósofa francesa, Elisabeth Badinter, que está a causar polémica no seu país por defender no livro "O conflito, a mulher e a mãe" que as mulheres dos nossos dias são vítimas de uma «revolução silenciosa» que trouxe um retrocesso nas mentalidades, obrigando-as a abdicarem da carreira para serem super-mães. Às mulheres portuguesas exige-se-lhes que sejam super-mulheres!
Não podendo abdicar da carreira pelos filhos, mesmo que o quisessem, por causa do baixo nível dos salários e da falta de apoio do Estado para o efeito, a portuguesa mulher moderna não tem que ser apenas uma mãe exímia, atenta, informada, sempre presente, mas espera-se que seja ainda uma profissional competente, pro-activa, com um rendimento sem mácula, e também se conta com uma esposa ou companheira prendada e dedicada, uma dona de casa eficaz e mais, uma figura elegante e sensual. Quantas mulheres numa só!
Diz-se que hoje em dia os homens já ajudam nas tarefas domésticas... Sim, ajudam! Põem o lixo na rua, arrumam a mesa quando os pais lá vão a casa, cozinham na visita dos sogros e lavam a louça no dia de anos dela. A máquina de roupa é o único mecanismo electrónico que não sabem controlar e o ferro de passar é um objecto alienígena que não conhecem! A esfregona é interdita a másculas mãos e a piaçaba um horizonte longínquo que nunca tocaram. Sim, eles vão ajudando, quando lá vão os amigos e é preciso dar um ar de modernidade.
Às mulheres cabe ainda essa responsabilidade considerada menor de coordenar a vida doméstica. O ninho continua a ser domínio quase restrito delas, onde eles vão dando uma mão para segurar as pontas. A elas pedem-se-lhes todos os sacrifícios porque ser mulher é sinónimo de merecido sofrimento desde que Eva trincou a maçã. E elas condescendem, porque é preciso manter a casa e os filhos às costas. E não há verdadeiramente tempo para a revolta. Entre as panelas e a roupa sujas, entre as birras das crianças e os lamentos dos maridos, entre as contas e os trocos que restam, o que fica para elas? A culpa por não serem capazes de fazer tudo na perfeição, como se lhes é exigido. Essa culpa também justiçada no paraíso em todas as Evas do mundo.
A culpa pelos problemas dos filhos. A culpa pelos casamentos desfeitos. A culpa pelas faltas ao trabalho nas doenças dos filhos. A culpa pelas idas ao trabalho apesar das maleitas dos filhos. A culpa pelo guisado esturrado porque se estava a lavar louça e a fazer o arroz ao mesmo tempo. Culpada! Culpada pelos quilos a mais nunca perdidos desde a gravidez. Culpada pelas rugas e cabelos brancos crescentes que não se podem esconder. Culpada perante o empregador que só vê uma mãe que não trabalhará para além do horário por ter que ir buscar a filha à creche. Culpada! Culpada por toda a eternidade pelo pecado original de ser mulher.
[Publicada no jornal Notícias dos Arcos de 04 Março 2010]
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