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Foi um prazer ter andado por cá. Mas a vida continua já ali...
O pote ao lume
Crónicas de Susana Valente
sexta-feira, 26 de julho de 2013
sábado, 29 de junho de 2013
Acordar, respirar, sorrir e amar
As pessoas morrem à
nossa volta e é então que nos damos conta de que estamos velhos. Enfrentamos as
perdas e os nomes das doenças assustadoras e confrontamo-nos com a impotência
do ser humano. A vida não nos pertence em absoluto.
Renomeamos os momentos
que passamos com essas pessoas que partem e pensamos em tudo o que não
dissemos, nos gestos de carinho que não fizemos. Temos saudades dos momentos
que passamos com elas e arrependemo-nos por não os termos aproveitado na plenitude.
Olhamos para os filhos
e pensamos em tudo o que ainda queremos fazer com eles. Queremos vê-los
crescer, acompanhar os seus sonhos, estar nos seus casamentos, cuidar dos seus
filhos... O medo de morrer, para os pais, está sempre associado ao medo de
deixar os filhos para trás - quem cuidará deles sem nós presentes? Quem lhes
dará colo, quem lhes enxugará as lágrimas, quem compreenderá as suas birras e
os seus feitios, quem os amará tanto como nós...
E, apesar disso,
espantamo-nos quando uma actriz famosa retira os seios - um dos grandes
atributos de beleza por que era conhecida - com medo de contrair cancro. O que
é que cada um de nós estaria disposto a dar para garantir o prolongamento da
vida?
Quando vemos, na
televisão, a devastação imensa causada por um tornado, encolhemo-nos no sofá,
perante a pequenez humana. A natureza pode esmagar toda a humanidade em
segundos! E, apesar disso, prosseguimos, persistimos nos hábitos de sempre,
tantas vezes ferindo de morte essa natureza de que precisamos para sobreviver.
Na verdade, não podemos
fazer outra coisa a não ser continuar. Pode-se morrer com uma queda no banho! A
qualquer momento. Não temos controlo algum sobre o nosso tempo de vida. E é
assustador percebê-lo. Mas também, de algum estranho modo, é um alívio. Se nada
podemos fazer, só temos que acordar, respirar, sorrir sempre e amar muito. E
depois, seja o que vier...
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 27-06-2013]
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
O Natal da meninice
No Natal da minha
infância, o Pai Natal era figura irrelevante. Nem me lembro de acreditar nessa
personagem que hoje domina o universo de fantasia das crianças.
Nesses dias da
inocência, era o Menino Jesus quem entregava as prendas. Sabíamos bem, eu e os
meus irmãos, que eram os nossos pais quem nos presenteavam com algo fora do
comum naquele dia especial. Porque, não como agora, só havia presentes naquele
dia e doces e guloseimas.
O Natal era o tempo de
todo o açúcar, pois no resto do ano os nossos pais não nos permitiam tanta
gulodice. E não havia miúdos obesos! Brincávamos na rua, caíamos, esfolávamos
os joelhos e continuávamos como se nada fosse. Trepávamos a árvores e a muros
demasiado altos e de modos extraordinariamente perigosos e partíamos braços e
pernas, mas não fazia mal. Era assim crescer.
Hoje em dia, os miúdos
confinam-se ao lar, perante todos os perigos do exterior. Brincam dentro das
suas casas, os pais não os deixam correr demasiado depressa para não se
magoarem, à mínima queda correm para as urgências e as árvores e os muros são
obstáculos que é preciso contornar.
Os miúdos deste tempo
já parecem nascer sem a ingenuidade que nos animava nos dias da minha infância.
São muito mais perspicazes quanto ao mundo em seu redor. Nós, os putos de
antanho, só tínhamos um canal de televisão e não havia a Internet para nos
abrir os olhos para tudo o que não tínhamos. Não sonhávamos com prendas de
Natal porque não éramos aliciados pela enxurrada de publicidade que invade a
quadra, não estávamos sujeitos à lavagem cerebral que molda os desejos de todas
as crianças a massa informe e sem vontade própria. Tínhamos fisgas de pau e
brincávamos com bolotas e éramos felizes criando os nossos mundos de fantasia.
Éramos tão puros como a
imagem do Menino Jesus no presépio. Despojados na singeleza que deve rimar com
a infância. E penso verdadeiramente que éramos mais felizes do que os putos do
presente. Mais autenticamente crianças! E no Natal vivíamos realmente esse
espírito da época, sem esperar presentes, apenas ansiando a magia de uns
chocolates, nas meias penduradas à lareira, e uma noite mais longa do que o
habitual, em que as birras e brigas típicas de irmãos se adiavam. Eis a minha
memória saudosa do irrecuperável Natal dessa meninice tão distante.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 20-12-2012]
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
A minha avó Linda já sabia!
Quando a minha querida
avó, infelizmente já falecida, nos dizia que os tempos de miséria ainda
haveriam de voltar, não acreditávamos nela! Eu e os meus irmãos soltávamos um
sorriso complacente - o sorriso ingénuo dos que não sabem nada da vida.
Muito antes de a crise
nos esvaziar os bolsos, bem antes de aparecerem todos os especialistas
económicos a falarem do assunto, a avó Linda sabia que a prosperidade não era
um dado adquirido. Mulher de sete filhos (viu dois falecerem em bebés e uma
filha adulta ser levada pela doença), com mãos calejadas por demasiados anos de
trabalho no campo, ela já sabia, nos idos 1990´s, que a economia gira e gira e
volta sempre a cair no lombo dos mais fracos.
Tinha razão, a minha
querida avó! O país afunda-se de novo na miséria. E se antes era Salazar quem assaltava as casas dos pobres portugueses, retirando-lhes uns alqueires de milho
que tanto lhes fariam falta e que tanto suor tinham reclamado para se deixarem colher,
o governo democrático presente faz o mesmo com os parcos salários dos contribuintes,
a coberto da Troika. Procedendo como autêntica organização mafiosa, este conluio
entre fatos e gravatas nacionais e estrangeiros guiar-nos-á do fundo do poço
para o exterior luminoso... Guiar-nos-á?! Mas alguém acredita nisso?!
Temo que nem os
próprios motores das políticas de austeridade acreditem nos seus pretensos efeitos
positivos, a longo prazo. Nem isso é grande motivo de preocupação para as suas
cabecinhas confortadas por bons salários e regalias que previnem enxaquecas.
Desconhecem a batalha real dos portugueses para pagarem as contas e para abastecerem
o frigorífico e vêm dizer-nos que vivemos acima das nossas possibilidades!
No início do túnel de
negrume, podemos já antever que as medidas desta crise vão matar o estado
social, tal como o conhecemos até agora. Está, num crescendo de certeza, cada um
de nós por sua conta! Não se pode contar com o estado para mais nada que não
seja a recolha de impostos! E a minha avó Linda já sabia disso. Como também o
sabia a minha avó Maria. Porque no tempo de elas criarem os filhos, estavam
sozinhas na luta diária para terem pão na mesa. O estado era o papão que ia
buscar o milho que era preciso para alimentar as crias. E elas contornavam a
miséria à força de imaginação e não se deixavam sonhar. Como sonhar quando a
fome borbulha no estômago dos filhos? Tantos anos depois, também nós, mães
desta modernidade das Internets e dos Iphones, vamos deixando de sonhar com os
pés cada vez mais enterrados na penúria.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 29 de Dezembro de 2012]
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Custa tanto ser pai sempre!
É um cabeleireiro. A mulher estica o cabelo enquanto o homem e os dois filhos aguardam.
A miúda tem cerca de 10 anos, o miúdo menos de 3 e a urgência de descoberta que não o deixa estar quieto. A essa pressa que gera a traquinice responde o pai com a passividade dos primeiros cabelos brancos que gritam por descanso. De pernas e braços cruzados, vai gritando ó gabriel, não faças isso, sai já daí, mas não se levanta do sofá onde se refastela e vai dizendo à cabeleireira que num dia o filho destruiria aquilo tudo.
Por três vezes a criança atira o cortinado mal colocado ao chão porque insiste em brincar com as suas mágicas tiras soltas. O pai diz vou ter que te bater e repete a ideia do terrível destruidor, sem nada fazer.
É a miúda que corre atrás do puto quando ele rebusca os rolos do cabelo e quando ela fica sentada na leveza da sua infância, o pai avisa-a, ainda vais apanhar tu pelo teu irmão. A mãe sempre inerte nas mãos experimentadas da cabeleireira apressada.
Custa tanto ser pai sempre! Mas é o que se é desde o momento em que os filhos nascem. Há quem fuja à responsabilidade, não por maldade, por urgência de escapar a esse peso que engole tudo o resto. Ser mãe, ser pai todos os dias cansa! É uma energia inesgotável a dos filhos felizes. E é felizes que os queremos e mais felizes são quanto mais de nós lhes damos.
Todos os pais sabem como se deviam educar os filhos dos outros. E todos sentem o avassalador embate do crítico olhar alheio. E todos também sabem que os miúdos não vêm com manuais de instruções e que nenhum é igual a outro sendo semelhantemente desafiantes. Mas deixamos a tolerância na gaveta com as peúgas rotas que não temos paciência ou tempo para coser.
E esquecemos, na teia do envelhecimento, que já fomos crianças e que o não pode ser palavra oca ou rastilho para mais uma traquinice. E fazemos por esquecer que ser pai é muito dizer não, e dizemos sim ou nim na paz do senhor porque ouvimos todos os nãos e percebemos finalmente como custa negar.
A vida é não ter, não poder, não ser – vive-se com o gosto do quase, do se e do perpétuo querer do que não se é ou não se tem. Custa tanto aceitá-lo e deixar que um filho o entenda é a forma permanente de o admitir.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 15 de Setembro de 2011]
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
O tempo de ser Agosto
Agosto, o mês das férias! O tempo das festas e do regresso a casa para muitos emigrantes. A esta pátria que os acolhe como estrangeiros, e a que voltam como forasteiros. É um retorno ingrato, porque os faz viver o vazio de pertença a lugar nenhum.
Vivo esta dualidade como migrante, deslocada da terra-mãe. Sempre que volto, há aquele sentimento de regresso ao útero, ao colo maternal e às vivência familiares, mas há também a estranheza de quem chega como elemento de fora do cenário - um corpo estranho na rotina que flui sem nós. E há o sentimento de perda - perdeu-se o tempo dos lugares, das pessoas, o mundo da infância e da juventude correu alheio à nossa ausência. E dói. Dói reencontrar aqueles que amamos e perceber que a vida deles existe sem nós, que a nossa vida existe sem eles.
No regresso às terras que nos matam a fome e a sede vivemos com esse buraco no peito, a certeza da falta e da distância. É a saudade a abraçar constantemente os que se aguentam longe do ninho onde nasceram. O sal que perpetua a inconveniência de ser de lugar nenhum.
E por isso Agosto é também o tempo da não vida, do sol, da praia, das festas na aldeia. O tempo de ser do momento na leveza de não sentir essa saudade que voltará a alojar-se no peito, indefinida e infinitamente. O cabide que nos sustenta na expectativa do regresso.
[Publicado no jornal Noticias dos Arcos de 04 Agosto 2010]
terça-feira, 12 de julho de 2011
A indiferença
Há um homem que lê contos em voz alta num comboio. É de manhã bem cedo e os viajantes exibem caras de sono, olham o vazio ou miram pela janela a paisagem. O leitor, numa voz colocada de actor, desfia um texto de Herberto Hélder sobre a indiferença. E é indiferentes que os passageiros o ouvem.
Vão pensando no trabalho que os aguarda, arranhando o dia que começa com um olhar apático. Ninguém quer saber do esforço que o homem faz para se ouvir na barulheira da viagem. A ninguém sensibiliza a circunstância de um completo estranho se dar ao trabalho de embalar a manhã de quem madrugou para apanhar o comboio.
Evita-se o contacto directo com o leitor, olhando-se de esguelha para os seus sapatos, as suas unhas, o boné que lhe aconchega a cabeça. Há quem tenha alguma pena deste homem, sozinho no meio do corredor, encostado ao rebordo de um banco para se equilibrar no bambolear da carruagem. E há quem nem o tenha visto no absoluto desinteresse que a rotina diária alimenta.
É com esta mesma indiferença que é encarado o mendigo de barbas brancas que, sentado em frente a uma loja de roupa cara, pede esmola com um sobretudo roto e sujo. Na apatia olha-se o mais possível em frente evitando confrontar o olhar com o sem-abrigo que dorme, com a cabeça enfiada num caixote de papel, mesmo à entrada de uma loja de decoração.
É na indiferença pelos outros que corre a vidinha de todos os dias! As horas preenchidas no mesmo passo apressado, na contagem dos minutos que faltam ou que passaram, na lamúria pelas contas que se acumulam, os salários que não engordam e os governos que se repetem desgovernados. Com o rolar monocórdico do comboio, flui o queixume inconsequente.
Andamos todos um pouco adormecidos, ensonados por dentro e por fora. Olhamos com desdém o rico que esbanja o tanto que não temos e maldizemos o pobre que nos perturba com a sua miséria. Miseráveis vogamos na dormência das regras sociais, pensando sempre no que se pode ou não dizer, no parecer bem... Mas não queremos saber da dor alheia, da tristeza ou do sorriso de quem se senta ao nosso lado no comboio. Desviamos o olhar quando o passageiro em frente nos olha e olhamo-lo quando desvia os olhos de nós.
É um mal que se alastra como bolor pelas almas, que as torna intolerantes ao contacto e que as leva a apertar as mãos, num cumprimento, como quem segura um bule quente com dois dedos. É o aperto de mão de quem não se compromete. De quem não quer saber do carácter ou da moralidade e só quer ver os novelos do seu umbigo.
Nesta indiferença multiplicada surgem os doutores e engenheiros com ideias milagrosas para o país! E há fome e há desemprego e há desespero e oferecem-nos um Aeroporto para alimentar a esperança! Temos pontes novas, rotundas a pacote, cavalos sem patas e senhores feudais de chicote comandando-lhes o trote, alheios ao facto de não poderem dar um passo sequer.
Ninguém quer saber se há quem não tenha pão na mesa ou uma barraca ao menos para se abrigar do frio. Ninguém quer saber se um velho tropeça e parte a testa no passeio. A ninguém interessa o que aquele homem lê em voz alta na carruagem. Seria demasiado incómodo perceber que aquela história sobre almas sós que a ninguém interessam é também sobre nós.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 17 Janeiro 2008]
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