segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A minha avó Linda já sabia!


Quando a minha querida avó, infelizmente já falecida, nos dizia que os tempos de miséria ainda haveriam de voltar, não acreditávamos nela! Eu e os meus irmãos soltávamos um sorriso complacente - o sorriso ingénuo dos que não sabem nada da vida.

Muito antes de a crise nos esvaziar os bolsos, bem antes de aparecerem todos os especialistas económicos a falarem do assunto, a avó Linda sabia que a prosperidade não era um dado adquirido. Mulher de sete filhos (viu dois falecerem em bebés e uma filha adulta ser levada pela doença), com mãos calejadas por demasiados anos de trabalho no campo, ela já sabia, nos idos 1990´s, que a economia gira e gira e volta sempre a cair no lombo dos mais fracos.

Tinha razão, a minha querida avó! O país afunda-se de novo na miséria. E se antes era Salazar quem assaltava as casas dos pobres portugueses, retirando-lhes uns alqueires de milho que tanto lhes fariam falta e que tanto suor tinham reclamado para se deixarem colher, o governo democrático presente faz o mesmo com os parcos salários dos contribuintes, a coberto da Troika. Procedendo como autêntica organização mafiosa, este conluio entre fatos e gravatas nacionais e estrangeiros guiar-nos-á do fundo do poço para o exterior luminoso... Guiar-nos-á?! Mas alguém acredita nisso?!

Temo que nem os próprios motores das políticas de austeridade acreditem nos seus pretensos efeitos positivos, a longo prazo. Nem isso é grande motivo de preocupação para as suas cabecinhas confortadas por bons salários e regalias que previnem enxaquecas. Desconhecem a batalha real dos portugueses para pagarem as contas e para abastecerem o frigorífico e vêm dizer-nos que vivemos acima das nossas possibilidades!

No início do túnel de negrume, podemos já antever que as medidas desta crise vão matar o estado social, tal como o conhecemos até agora. Está, num crescendo de certeza, cada um de nós por sua conta! Não se pode contar com o estado para mais nada que não seja a recolha de impostos! E a minha avó Linda já sabia disso. Como também o sabia a minha avó Maria. Porque no tempo de elas criarem os filhos, estavam sozinhas na luta diária para terem pão na mesa. O estado era o papão que ia buscar o milho que era preciso para alimentar as crias. E elas contornavam a miséria à força de imaginação e não se deixavam sonhar. Como sonhar quando a fome borbulha no estômago dos filhos? Tantos anos depois, também nós, mães desta modernidade das Internets e dos Iphones, vamos deixando de sonhar com os pés cada vez mais enterrados na penúria.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de  29 de Dezembro de 2012]

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