Quando a minha querida
avó, infelizmente já falecida, nos dizia que os tempos de miséria ainda
haveriam de voltar, não acreditávamos nela! Eu e os meus irmãos soltávamos um
sorriso complacente - o sorriso ingénuo dos que não sabem nada da vida.
Muito antes de a crise
nos esvaziar os bolsos, bem antes de aparecerem todos os especialistas
económicos a falarem do assunto, a avó Linda sabia que a prosperidade não era
um dado adquirido. Mulher de sete filhos (viu dois falecerem em bebés e uma
filha adulta ser levada pela doença), com mãos calejadas por demasiados anos de
trabalho no campo, ela já sabia, nos idos 1990´s, que a economia gira e gira e
volta sempre a cair no lombo dos mais fracos.
Tinha razão, a minha
querida avó! O país afunda-se de novo na miséria. E se antes era Salazar quem assaltava as casas dos pobres portugueses, retirando-lhes uns alqueires de milho
que tanto lhes fariam falta e que tanto suor tinham reclamado para se deixarem colher,
o governo democrático presente faz o mesmo com os parcos salários dos contribuintes,
a coberto da Troika. Procedendo como autêntica organização mafiosa, este conluio
entre fatos e gravatas nacionais e estrangeiros guiar-nos-á do fundo do poço
para o exterior luminoso... Guiar-nos-á?! Mas alguém acredita nisso?!
Temo que nem os
próprios motores das políticas de austeridade acreditem nos seus pretensos efeitos
positivos, a longo prazo. Nem isso é grande motivo de preocupação para as suas
cabecinhas confortadas por bons salários e regalias que previnem enxaquecas.
Desconhecem a batalha real dos portugueses para pagarem as contas e para abastecerem
o frigorífico e vêm dizer-nos que vivemos acima das nossas possibilidades!
No início do túnel de
negrume, podemos já antever que as medidas desta crise vão matar o estado
social, tal como o conhecemos até agora. Está, num crescendo de certeza, cada um
de nós por sua conta! Não se pode contar com o estado para mais nada que não
seja a recolha de impostos! E a minha avó Linda já sabia disso. Como também o
sabia a minha avó Maria. Porque no tempo de elas criarem os filhos, estavam
sozinhas na luta diária para terem pão na mesa. O estado era o papão que ia
buscar o milho que era preciso para alimentar as crias. E elas contornavam a
miséria à força de imaginação e não se deixavam sonhar. Como sonhar quando a
fome borbulha no estômago dos filhos? Tantos anos depois, também nós, mães
desta modernidade das Internets e dos Iphones, vamos deixando de sonhar com os
pés cada vez mais enterrados na penúria.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 29 de Dezembro de 2012]
Sem comentários:
Enviar um comentário