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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O tempo de ser Agosto


Agosto, o mês das férias! O tempo das festas e do regresso a casa para muitos emigrantes. A esta pátria que os acolhe como estrangeiros, e a que voltam como forasteiros. É um retorno ingrato, porque os faz viver o vazio de pertença a lugar nenhum.

Vivo esta dualidade como migrante, deslocada da terra-mãe. Sempre que volto, há aquele sentimento de regresso ao útero, ao colo maternal e às vivência familiares, mas há também a estranheza de quem chega como elemento de fora do cenário - um corpo estranho na rotina que flui sem nós. E há o sentimento de perda - perdeu-se o tempo dos lugares, das pessoas, o mundo da infância e da juventude correu alheio à nossa ausência. E dói. Dói reencontrar aqueles que amamos e perceber que a vida deles existe sem nós, que a nossa vida existe sem eles.

No regresso às terras que nos matam a fome e a sede vivemos com esse buraco no peito, a certeza da falta e da distância. É a saudade a abraçar constantemente os que se aguentam longe do ninho onde nasceram. O sal que perpetua a inconveniência de ser de lugar nenhum.

E por isso Agosto é também o tempo da não vida, do sol, da praia, das festas na aldeia. O tempo de ser do momento na leveza de não sentir essa saudade que voltará a alojar-se no peito, indefinida e infinitamente. O cabide que nos sustenta na expectativa do regresso. 

[Publicado no jornal Noticias dos Arcos de 04 Agosto 2010]

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A humanidade destroçada


A terra tremeu e nada ficou intacto. Um país que desaba, um povo que chora e o mundo que vê espantado e incrédulo.

O Haiti é tão longe como desconhecido é o senhor Richter da Escala que conta a dimensão da tragédia num conciso 7. Um número que não diz tanto como os mais de 100 mil mortos ou como os milhões de desalojados e que não conta a horrível história. Há cadáveres empilhados nas ruas. Um velho acamado moribundo e de fralda prestes a ser comido pelos ratos. Um homem queimado vivo porque roubou. E mais o cheiro a morte do ar que no nosso lado temperado não saberemos identificar e que nos chega não às narinas mas ao sentido na boca quando lemos os jornais.

«É um desastre histórico», dizem os responsáveis da ONU. «O início do fim do mundo!», grita desesperada uma mulher que viveu na pele a catástrofe. Por cá é um filme dramático que nos emudece e nos faz pensar mas não demasiado que o relógio corre. Não temos o fedor noticiado entranhado no corpo para entender a humanidade destroçada e a necessidade básica de deixar os velhos e os feridos irremediáveis ao que deus dará.

Nas ruas do Haiti os que sobreviveram aguentam como animais abandonados, esfomeados, esfarrapados, espremidos da razão. Ou vão definhando até ao sopro último, ou a cada dia são mais feras no instinto primitivo de resistirem. Depois da tragédia da destruição física, a desgraça inevitável de bestializar o humano.

São as grandes catástrofes que transformam homens em heróis ou vilãos. A dor e o desespero andam de braço dado para trazer à tona o bom e o mau. Cabe a cada um a espuma de que é feito. Nenhum de nós, que lê na serenidade de uma casa que não foi abaixo, saberá o que seria se colocado no epicentro de um abalo tão letal ao próprio conceito do humano. 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 21 Janeiro 2010]