Mostrar mensagens com a etiqueta vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vida. Mostrar todas as mensagens

sábado, 29 de junho de 2013

Acordar, respirar, sorrir e amar

As pessoas morrem à nossa volta e é então que nos damos conta de que estamos velhos. Enfrentamos as perdas e os nomes das doenças assustadoras e confrontamo-nos com a impotência do ser humano. A vida não nos pertence em absoluto.

Renomeamos os momentos que passamos com essas pessoas que partem e pensamos em tudo o que não dissemos, nos gestos de carinho que não fizemos. Temos saudades dos momentos que passamos com elas e arrependemo-nos por não os termos aproveitado na plenitude.

Olhamos para os filhos e pensamos em tudo o que ainda queremos fazer com eles. Queremos vê-los crescer, acompanhar os seus sonhos, estar nos seus casamentos, cuidar dos seus filhos... O medo de morrer, para os pais, está sempre associado ao medo de deixar os filhos para trás - quem cuidará deles sem nós presentes? Quem lhes dará colo, quem lhes enxugará as lágrimas, quem compreenderá as suas birras e os seus feitios, quem os amará tanto como nós...

E, apesar disso, espantamo-nos quando uma actriz famosa retira os seios - um dos grandes atributos de beleza por que era conhecida - com medo de contrair cancro. O que é que cada um de nós estaria disposto a dar para garantir o prolongamento da vida?

Quando vemos, na televisão, a devastação imensa causada por um tornado, encolhemo-nos no sofá, perante a pequenez humana. A natureza pode esmagar toda a humanidade em segundos! E, apesar disso, prosseguimos, persistimos nos hábitos de sempre, tantas vezes ferindo de morte essa natureza de que precisamos para sobreviver.

Na verdade, não podemos fazer outra coisa a não ser continuar. Pode-se morrer com uma queda no banho! A qualquer momento. Não temos controlo algum sobre o nosso tempo de vida. E é assustador percebê-lo. Mas também, de algum estranho modo, é um alívio. Se nada podemos fazer, só temos que acordar, respirar, sorrir sempre e amar muito. E depois, seja o que vier...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 27-06-2013]

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Custa tanto ser pai sempre!

É um cabeleireiro. A mulher estica o cabelo enquanto o homem e os dois filhos aguardam.

A miúda tem cerca de 10 anos, o miúdo menos de 3 e a urgência de descoberta que não o deixa estar quieto. A essa pressa que gera a traquinice responde o pai com a passividade dos primeiros cabelos brancos que gritam por descanso. De pernas e braços cruzados, vai gritando ó gabriel, não faças isso, sai já daí, mas não se levanta do sofá onde se refastela e vai dizendo à cabeleireira que num dia o filho destruiria aquilo tudo.

Por três vezes a criança atira o cortinado mal colocado ao chão porque insiste em brincar com as suas mágicas tiras soltas. O pai diz vou ter que te bater e repete a ideia do terrível destruidor, sem nada fazer.

É a miúda que corre atrás do puto quando ele rebusca os rolos do cabelo e quando ela fica sentada na leveza da sua infância, o pai avisa-a, ainda vais apanhar tu pelo teu irmão. A mãe sempre inerte nas mãos experimentadas da cabeleireira apressada.

Custa tanto ser pai sempre! Mas é o que se é desde o momento em que os filhos nascem. Há quem fuja à responsabilidade, não por maldade, por urgência de escapar a esse peso que engole tudo o resto. Ser mãe, ser pai todos os dias cansa! É uma energia inesgotável a dos filhos felizes. E é felizes que os queremos e mais felizes são quanto mais de nós lhes damos.

Todos os pais sabem como se deviam educar os filhos dos outros. E todos sentem o avassalador embate do crítico olhar alheio. E todos também sabem que os miúdos não vêm com manuais de instruções e que nenhum é igual a outro sendo semelhantemente desafiantes. Mas deixamos a tolerância na gaveta com as peúgas rotas que não temos paciência ou tempo para coser.

E esquecemos, na teia do envelhecimento, que já fomos crianças e que o não pode ser palavra oca ou rastilho para mais uma traquinice. E fazemos por esquecer que ser pai é muito dizer não, e dizemos sim ou nim na paz do senhor porque ouvimos todos os nãos e percebemos finalmente como custa negar.

A vida é não ter, não poder, não ser – vive-se com o gosto do quase, do se e do perpétuo querer do que não se é ou não se tem. Custa tanto aceitá-lo e deixar que um filho o entenda é a forma permanente de o admitir.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 15 de Setembro de 2011]