As pessoas morrem à
nossa volta e é então que nos damos conta de que estamos velhos. Enfrentamos as
perdas e os nomes das doenças assustadoras e confrontamo-nos com a impotência
do ser humano. A vida não nos pertence em absoluto.
Renomeamos os momentos
que passamos com essas pessoas que partem e pensamos em tudo o que não
dissemos, nos gestos de carinho que não fizemos. Temos saudades dos momentos
que passamos com elas e arrependemo-nos por não os termos aproveitado na plenitude.
Olhamos para os filhos
e pensamos em tudo o que ainda queremos fazer com eles. Queremos vê-los
crescer, acompanhar os seus sonhos, estar nos seus casamentos, cuidar dos seus
filhos... O medo de morrer, para os pais, está sempre associado ao medo de
deixar os filhos para trás - quem cuidará deles sem nós presentes? Quem lhes
dará colo, quem lhes enxugará as lágrimas, quem compreenderá as suas birras e
os seus feitios, quem os amará tanto como nós...
E, apesar disso,
espantamo-nos quando uma actriz famosa retira os seios - um dos grandes
atributos de beleza por que era conhecida - com medo de contrair cancro. O que
é que cada um de nós estaria disposto a dar para garantir o prolongamento da
vida?
Quando vemos, na
televisão, a devastação imensa causada por um tornado, encolhemo-nos no sofá,
perante a pequenez humana. A natureza pode esmagar toda a humanidade em
segundos! E, apesar disso, prosseguimos, persistimos nos hábitos de sempre,
tantas vezes ferindo de morte essa natureza de que precisamos para sobreviver.
Na verdade, não podemos
fazer outra coisa a não ser continuar. Pode-se morrer com uma queda no banho! A
qualquer momento. Não temos controlo algum sobre o nosso tempo de vida. E é
assustador percebê-lo. Mas também, de algum estranho modo, é um alívio. Se nada
podemos fazer, só temos que acordar, respirar, sorrir sempre e amar muito. E
depois, seja o que vier...
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 27-06-2013]
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