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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Povo de brandos costumes


Pobres, mas felizes! Eis o retrato dos portugueses traçado por um estudo a que a televisão deu eco há dias. Este estudo constata que muitos portugueses vivem próximo do limiar da pobreza, com ordenados insuficientes para custear as despesas diárias. Apesar disso, definem-se felizes e bastariam mais uns euros para aumentar o contentamento para níveis de felicidade. Somos um povo pouco exigente! Demasiado brandos com nós próprios, excessivamente condescendentes com os que nos governam.

Começa na escola esta apetência pelo facilitismo. Há pais que ficam indignados quando os seus filhos não passam de ano, preocupados com o chumbo na perspectiva social e nada interessados em saberem se é merecido. Porque o que importa é o canudo, o carimbo de doutor, engenheiro ou senhor professor. Tanto faz se é "comprado" em Universidades privadas que funcionam como supermercados de habilitações ou se é um daqueles cursos inventados ao sabor do vento sem servir para nada.

Nos últimos tempos parece ter o próprio ministério da Educação apostado na facilidade nos Exames Nacionais. Se há más notas a Matemática e a Português que se exijam menos competências aos alunos! Não chegando as cábulas que levem máquinas de calcular para fazerem as contas por eles e que não se façam perguntas difíceis para não traumatizar os meninos! 

Quando a competitividade é o motor dos dias actuais estamos a formar burros, mentes abertas a Ipods, SMS, Internet, mas tacanhas nas competências básicas. Ora, não podemos esperar um futuro muito risonho, nem tão pouco o podem os jovens que na Escola se vêem privados da exigência que depois lhes será demandada no mercado de trabalho.

Mas não há crise! Porque a felicidade de um português requer pouca coisa – uma casa, um carro, a TV Cabo e um dinheiro a mais para umas cervejas enquanto se inveja o Cristiano Ronaldo e se jogam dois euros no Euromilhões a ver se se fica rico! É com a sorte que se conta quando não há engenho ou capacidade.

Não é à toa que nos apelidamos de povo de brandos costumes. A brandura é orgânica e traço letal do português. Está-nos nos genes, alimentada por um clima temperado e por uma paisagem amena. Na nossa História fomos ciclicamente adormecidos, ora pela fartura dos Descobrimentos, ora pela míngua do Estado Novo. A espaços houve heróis que fizeram a diferença - Afonso Henriques, o Infante D. Henrique, Salgueiro Maia, entre outros -, mas a maioria fica-se pela mediocridade. Não admira que sejamos hoje um povo à deriva, sem esperança, sem soluções para deixar a crise.

Historicamente fomos sempre apanhados pelos acontecimentos e deixamo-nos ir como galhos na corrente do rio. Reis, ditadores, presidentes, primeiros-ministros, deputados, autarcas, todos agarrados ao poder, governando os seus próprios interesses, e o português fechando os olhos no sono brando de quem só quer comida para a boca, um pouco de calor na alma, uns trapos na moda para manter a aparência e nenhum peso na cabeça.

Criticamos os políticos que temos, mas na verdade mais não merecemos quando não exigimos de nós próprios a excelência.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 16 Julho 2009]

sexta-feira, 10 de abril de 2009

De economistas iluminados...


Alguns economistas têm defendido a redução dos salários como medida para combater a crise. 

Os salários em Portugal são, em média, mais baixos do que na maioria dos países da União Europeia. O fraco poder de compra é um dos problemas da classe média e pensar sequer em reduzir os magros salários dos trabalhadores é crueldade. Seria certamente uma boa medida para a economia dos patrões, ávidos de mão-de-obra barata (escrava, diga-se na verdade).

Em tempos de falências e de deslocalizações de empresas para a Europa de Leste, os "experts" da economia alegam que a redução salarial aumentaria a competitividade do nosso país e a sua capacidade para fixar e atrair investimentos. Talvez assim fosse, mas ninguém duvidará que nada faria para resolver aquela que é a grande angústia da nação - a falta de produtividade. Um trabalhador satisfeito rende mais, um que se sinta explorado e que veja o ordenado acabar ainda antes do meio do mês tudo fará para trabalhar de menos.

Aceitarão estes especialistas económicos ser eles cobaias de exemplo, apelando aos seus "patrões" para lhes reduzirem o ordenado? A resposta é demasiado clara. Eles não falam das suas nobres situações, apontam aquele que é o cenário ideal para os empresários e a sua sede de lucro. Evidentemente que não estão a pensar nos senhores administradores das empresas, aqueles que poderiam, sem grande mossa, abdicar de parte do que ganham. Nenhum economista iluminado fala da diminuição dos ordenados dos deputados ou dos ministros ou dos presidentes das empresas públicas. Defender estes cenários seria absolutamente pecaminoso. Um atentado aos direitos adquiridos! E este é o grande sarilho da história! Sempre que se tecem medidas radicais, as vítimas são os pobres de Deus e do Diabo!

Quão confortáveis não ficariam as Finanças Públicas se ministros, secretários de Estado e a sua plebe de assessores vissem os seus salários reduzidos em singelos 10%? E se o mesmo se aplicasse a deputados e presidentes de Câmara? E se os milionários administradores de EDP, PT e CGD contribuíssem também com o seu "sacrifício" no combate à crise? De impensável aplicação, sabe-se à partida, porque nunca os senhores do poleiro legislariam contra os seus próprios interesses.

A política é isso mesmo, uma arena de interesses particulares em disputa. Há dias Medina Carreira, em entrevista a Mário Crespo na SIC, falava dos partidos como «Bancos alimentares». E cabe-nos a nós, contribuintes mal pagos que não podem fugir aos impostos, sustentar a corja que parasita no Parlamento e pelos corredores da monstruosa máquina do Estado.

A bondade dos portugueses não parece ter fim, mas será que, se por decreto se definisse uma redução salarial generalizada, continuaríamos mudos e calados a remoer mágoas entredentes e entreportas? Poderíamos certamente esperar aglomerados de mercedes invadindo os centros históricos e manifs de fato e gravata reivindicando a reposição dos adquiridos euros aos gordos salários. Para quem tem muito, o dinheiro nunca é de mais! Para quem tem de menos, uns míseros euros são sempre muito.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 09 Abril 2009]

sábado, 15 de novembro de 2008

De crise e de lucro fácil...


Há dias os "patrões" revoltaram-se contra o governo por ter decidido aumentar o ordenado mínimo para 450 euros em 2009. Mais 25 euros na conta dos pobres empregados. Uma fortuna concerteza!

Os representantes do patronato logo vieram ameaçar com despedimentos, queixando-se de tamanho escândalo! Senhores engravatados, sem calo nas mãos, sem terem que esticar os trocos ganhos no suor do trabalho, acham certamente que 425 euros é um salário digno. Interesseiros na sua condição de empresários, pensam no lucro acima de toda a humanidade. Quando analisam os gráficos estatísticos sobre a produtividade ainda se espantam com os baixos índices de rendimento dos seus trabalhadores. Têm mais do que merecem, na verdade, por uns parcos 400 euros e tal.

É inacreditável a imoralidade entranhada entre altos responsáveis do país. Não há ética e pior, não há vergonha! Como pode alguém ir à Televisão insurgir-se contra um aumento que mantém o salário mínimo nacional em níveis de miséria?! Se compararmos com os nossos "irmãos" da União Europeia, temos em Espanha e Grécia um ordenado mínimo da ordem dos 600 e tal euros, ou de mais de mil euros nos casos de França, Holanda e Luxemburgo. Nós estamos no patamar "terceiro mundista".

Alegam os "patrões" que as pequenas e médias empresas poderão ficar em dificuldades com o aumento de 25 euros. As que realmente estão em condições tão fragilizadas não se salvarão de qualquer modo, haja ou não aumento do salário mínimo. Os tempos que aí vêm serão de crise aguda, dizem os mesmos especialistas que não conseguiram prever esta fase complicada. Durante 2009 se fará a triagem entre quem tem estaleca para aguentar a tempestade e quem não resistirá ao embate.

Como sempre, o Zé Povinho há-de levar com todos os males, mas prevê-se que a intempérie chegue também aos mais endinheirados. É porventura isso que já vai preocupando os "patrões"...

Entretanto, o governo decidiu "salvar" o Banco Português de Negócios (BPN) que estava em risco de falência por causa de operações ilegais que levaram a perdas superiores a 700 milhões de euros. Um valente "buraco" só agora "descoberto" por causa da crise. Valha-nos a crise para apurar os podres da nação...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 13 Novembro 2008]