Pobres, mas felizes! Eis o retrato dos portugueses traçado por um estudo a que a televisão deu eco há dias. Este estudo constata que muitos portugueses vivem próximo do limiar da pobreza, com ordenados insuficientes para custear as despesas diárias. Apesar disso, definem-se felizes e bastariam mais uns euros para aumentar o contentamento para níveis de felicidade. Somos um povo pouco exigente! Demasiado brandos com nós próprios, excessivamente condescendentes com os que nos governam.
Começa na escola esta apetência pelo facilitismo. Há pais que ficam indignados quando os seus filhos não passam de ano, preocupados com o chumbo na perspectiva social e nada interessados em saberem se é merecido. Porque o que importa é o canudo, o carimbo de doutor, engenheiro ou senhor professor. Tanto faz se é "comprado" em Universidades privadas que funcionam como supermercados de habilitações ou se é um daqueles cursos inventados ao sabor do vento sem servir para nada.
Nos últimos tempos parece ter o próprio ministério da Educação apostado na facilidade nos Exames Nacionais. Se há más notas a Matemática e a Português que se exijam menos competências aos alunos! Não chegando as cábulas que levem máquinas de calcular para fazerem as contas por eles e que não se façam perguntas difíceis para não traumatizar os meninos!
Quando a competitividade é o motor dos dias actuais estamos a formar burros, mentes abertas a Ipods, SMS, Internet, mas tacanhas nas competências básicas. Ora, não podemos esperar um futuro muito risonho, nem tão pouco o podem os jovens que na Escola se vêem privados da exigência que depois lhes será demandada no mercado de trabalho.
Mas não há crise! Porque a felicidade de um português requer pouca coisa – uma casa, um carro, a TV Cabo e um dinheiro a mais para umas cervejas enquanto se inveja o Cristiano Ronaldo e se jogam dois euros no Euromilhões a ver se se fica rico! É com a sorte que se conta quando não há engenho ou capacidade.
Não é à toa que nos apelidamos de povo de brandos costumes. A brandura é orgânica e traço letal do português. Está-nos nos genes, alimentada por um clima temperado e por uma paisagem amena. Na nossa História fomos ciclicamente adormecidos, ora pela fartura dos Descobrimentos, ora pela míngua do Estado Novo. A espaços houve heróis que fizeram a diferença - Afonso Henriques, o Infante D. Henrique, Salgueiro Maia, entre outros -, mas a maioria fica-se pela mediocridade. Não admira que sejamos hoje um povo à deriva, sem esperança, sem soluções para deixar a crise.
Historicamente fomos sempre apanhados pelos acontecimentos e deixamo-nos ir como galhos na corrente do rio. Reis, ditadores, presidentes, primeiros-ministros, deputados, autarcas, todos agarrados ao poder, governando os seus próprios interesses, e o português fechando os olhos no sono brando de quem só quer comida para a boca, um pouco de calor na alma, uns trapos na moda para manter a aparência e nenhum peso na cabeça.
Criticamos os políticos que temos, mas na verdade mais não merecemos quando não exigimos de nós próprios a excelência.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 16 Julho 2009]
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