sexta-feira, 10 de abril de 2009

De economistas iluminados...


Alguns economistas têm defendido a redução dos salários como medida para combater a crise. 

Os salários em Portugal são, em média, mais baixos do que na maioria dos países da União Europeia. O fraco poder de compra é um dos problemas da classe média e pensar sequer em reduzir os magros salários dos trabalhadores é crueldade. Seria certamente uma boa medida para a economia dos patrões, ávidos de mão-de-obra barata (escrava, diga-se na verdade).

Em tempos de falências e de deslocalizações de empresas para a Europa de Leste, os "experts" da economia alegam que a redução salarial aumentaria a competitividade do nosso país e a sua capacidade para fixar e atrair investimentos. Talvez assim fosse, mas ninguém duvidará que nada faria para resolver aquela que é a grande angústia da nação - a falta de produtividade. Um trabalhador satisfeito rende mais, um que se sinta explorado e que veja o ordenado acabar ainda antes do meio do mês tudo fará para trabalhar de menos.

Aceitarão estes especialistas económicos ser eles cobaias de exemplo, apelando aos seus "patrões" para lhes reduzirem o ordenado? A resposta é demasiado clara. Eles não falam das suas nobres situações, apontam aquele que é o cenário ideal para os empresários e a sua sede de lucro. Evidentemente que não estão a pensar nos senhores administradores das empresas, aqueles que poderiam, sem grande mossa, abdicar de parte do que ganham. Nenhum economista iluminado fala da diminuição dos ordenados dos deputados ou dos ministros ou dos presidentes das empresas públicas. Defender estes cenários seria absolutamente pecaminoso. Um atentado aos direitos adquiridos! E este é o grande sarilho da história! Sempre que se tecem medidas radicais, as vítimas são os pobres de Deus e do Diabo!

Quão confortáveis não ficariam as Finanças Públicas se ministros, secretários de Estado e a sua plebe de assessores vissem os seus salários reduzidos em singelos 10%? E se o mesmo se aplicasse a deputados e presidentes de Câmara? E se os milionários administradores de EDP, PT e CGD contribuíssem também com o seu "sacrifício" no combate à crise? De impensável aplicação, sabe-se à partida, porque nunca os senhores do poleiro legislariam contra os seus próprios interesses.

A política é isso mesmo, uma arena de interesses particulares em disputa. Há dias Medina Carreira, em entrevista a Mário Crespo na SIC, falava dos partidos como «Bancos alimentares». E cabe-nos a nós, contribuintes mal pagos que não podem fugir aos impostos, sustentar a corja que parasita no Parlamento e pelos corredores da monstruosa máquina do Estado.

A bondade dos portugueses não parece ter fim, mas será que, se por decreto se definisse uma redução salarial generalizada, continuaríamos mudos e calados a remoer mágoas entredentes e entreportas? Poderíamos certamente esperar aglomerados de mercedes invadindo os centros históricos e manifs de fato e gravata reivindicando a reposição dos adquiridos euros aos gordos salários. Para quem tem muito, o dinheiro nunca é de mais! Para quem tem de menos, uns míseros euros são sempre muito.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 09 Abril 2009]

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