Sou fã de José Sócrates. Não é que ache que o primeiro-ministro vai salvar o nosso berço há tantos anos à deriva. Mas aprecio a postura altiva e arrogante do homem.
José Sócrates faz parte de uma nova geração de políticos impecavelmente bem vestidos e com ar sedutor. Não chega aos calcanhares de um Nicolas Sarkozy que, depois de uma bela Cécile conquistou a não menos bonita Carla Bruni, mas o nosso "primeiro" tem uma namorada (diz-se, uma jornalista subitamente mediatizada e contestada) e parece que até vai casar no Verão, convenientemente antes das próximas eleições legislativas. Não se inibe de suar pelo sovaco como o povinho, descendo ao plano dos mortais humanos, quando faz o seu jogging ou participa em mini-maratonas que são notícia na televisão. E gosta de mandar calar jornalistas com a polida argumentação "deixe-me acabar", o que só se pode aplaudir quando alguns vestem a capa de inquisidor-mor.
No governo do país age com uma prepotência que estranha em terras de brandos costumes. Ora Sócrates pode dar-se com conforto ao pecado da arrogância por não ter ninguém à altura do seu peso político. Não há no PS, muito menos no PSD, quem lhe faça sombra, o que lhe dá a segurança dos monarcas e uma legitimação popular tão divina quanto a dos reis.
Nem o caso Freeport e a suspeita de ter aceitado subornos para aprovar a obra quando ainda era ministro do Ambiente afectam o seu poder uno e indivisível. Haverá poucos, ou mesmo ninguém, a acreditarem na inocência do primeiro-ministro, mas nesta nação de pecadores, quem nunca errou que atire a primeira pedra...
Na verdade ocupar cargos públicos significa em Portugal deixar-se corromper, é esse o senso comum alimentado por muitos autarcas e governantes sem remorsos ou escrúpulos. Seja Sócrates inocente ou culpado foi à partida condenado na praça pública, mas desde que não tenha roubado o Benfica está tudo bem! Afinal todos "mamam" e seja como for ficam sempre os mesmos a chuchar no dedo!
No fim das contas, quando o caso Freeport acabar, como todos os que causam embaraço a "figurões", sem condenados, arquivado nas profundezas de uma justiça que a miúdo vai perdendo credibilidade, Sócrates ganhará o direito democrático de perpetuar o seu governo por mais um mandato e no PSD nova batalha se encetará na busca do líder certo.
Sócrates é fatalmente a única alternativa que temos. E o preocupante não é termos que o aturar por uns bons anos, mas não haver outro rosto a quem confiar a esperança. Atravessaremos esta crise com Sócrates, rezemos para que no epílogo da história não se fale dele como do engenheiro das obras perdidas.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 14 Maio 2009]
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