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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Esperança precisa-se!


Sacrifícios, é o que nos pedem os governantes em tempos de crise. Sacrifícios e sacrifícios... Não é já hora de serem os governantes a dar o exemplo?

Na Irlanda o combate à crise económica faz-se com cortes salariais aos funcionários públicos e com o primeiro-ministro a dar o exemplo reduzindo o seu salário em 20 por cento. Os ministros sofreram uma redução salarial de 15 por cento. Poder-se-á alegar que é pouco e que não fará grande mossa nos rendimentos dos visados, mas não deixa de ser assinalável quando é caso raro os poderosos abdicarem de privilégios em prol do bem comum.

Por cá o Orçamento de Estado prevê o congelamento dos salários da Admninistração Pública como medida para pôr as contas em ordem. E o nosso "primeiro" José Sócrates pede-nos mais sacrifícios! Sacrifícios e sacrifícios... Mais abnegação na vidinha miserável da grande maioria dos portugueses. Não sabe claramente o engenheiro do que está a falar. Não o sabe no conforto do seu ordenado de primeiro-ministro, imune à inflacção na armadura dos fatos Armani.

O Conselho das Comunidades Portuguesas anunciou uma nova vaga de emigração semelhante à ocorrida nos anos 1960, a era da "mala de cartão". Nunca desde essa altura foram tantos os portugueses a fugir do país como agora, procurando escapar ao desemprego e aos salários miseráveis. São sobretudo os jovens licenciados ou com qualificações que abandonam uma pátria que empobreceu a classe média.

Na verdade, pertencer à classe média é hoje estar no primeiro patamar da pobreza, não tendo direito a subsídios ou apoios estatais, pagando impostos e recebendo em troca listas de espera nos hospitais e nas creches. É a classe que paga realmente pela crise, carregando às costas todos os aumentos, menos o do salário.

Em tempos claramente complicados não ficaria nada mal aos que nos governam dar o exemplo. Nem que fosse só para ficar bem nos compêndios da história! Quando se fala na necessidade de moralizar a política, há momentos ideais como estes para isso. Até para surpreender! Porque ninguém acredita que os nossos ministros e deputados deixariam que a crise lhes fosse ao bolso... É por não acreditar que a juventude qualificada atravessa as fronteiras da pátria em busca de esperança.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 04 Fevereiro 2010]

domingo, 7 de junho de 2009

Eu não voto!


Não vou votar nas eleições deste domingo, 7 de Junho. Como tantos outros portugueses, não acredito que o meu voto faça realmente a diferença. Adivinho que a abstenção será a grande vencedora, como vem sendo costume nas eleições dos últimos anos, ainda mais tratando-se de um sufrágio para o Parlamento Europeu.

A grande maioria une-se no desinteresse perante a politiquice do costume e muitos nem percebem bem em que vão votar! Há quem ache que a cruz que colocar no boletim de voto vai contar para a reeleição ou não de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia quando esta é uma escolha que não passa pelas mãos do povo. E se há quem não tenha percebido que o que se vai eleger são deputados para o Parlamento Europeu, algo vai muito mal!

A campanha dos Partidos decorreu como todas, envolta em tricas e pormenores de relevo nenhum, com os candidatos mais preocupados em assegurarem um tacho bem remunerado em Bruxelas do que em esclarecerem os eleitores quanto às suas estratégias e visões de futuro para um Portugal da União Europeia (UE). Nenhum dos Partidos tem realmente uma linha orientadora para aquilo que deve ser esta Europa comunitária, como nenhum dos governantes dos países da UE parece ter uma ideia a longo prazo para a comunidade europeia. Cada nação voga ao sabor dos seus interesses, como cada deputado europeu eleito no domingo se orientará pelo interesse maior do seu próprio estatuto ou bolso (já sei, há algumas excepções!).

É por tudo isto que os cidadãos do espaço comunitário querem pouco ou nada saber de eleições europeias. O projecto de uma Europa unida na diversidade ("In varietate concordia", o lema da fundação) falhou completamente! Continuamos a ter de um lado a Europa rica e do outro a Europa pobre, com Portugal no prato mais desfavorável da balança como exemplo flagrante de alguns dos principais insucessos da política comunitária. O caso mais grave é o da agricultura, absolutamente definhada por uma Política Comum feita à medida, como em tantas outras vertentes da UE, de certos países e lóbis.

Quando recuamos ao Portugal de 1986, ano de adesão à outrora CEE, percebemos que os milhões comunitários foram fundamentais para o desenvolvimento do país, mas concluímos que os benefícios retirados poderiam ter sido maiores, não fossem a corrupção e o desleixo a tomarem conta da máquina.

Quando pensamos na vizinha Espanha, que aderiu ao mesmo tempo que nós e que há 23 anos vivia porventura uma situação económica pior do que a nossa, que hoje tem um ordenado mínimo da ordem dos 600 euros, número que ilustra aquele que é o salário médio de grande parte dos portugueses, constatamos como continuamos a ser a cauda da Europa. E no fado que nos alimenta os dias não confiamos ser possível sair deste ponto em que estamos. Não será certamente possível com o calibre de políticos que temos actualmente.

Durante a campanha tem-se feito o apelo ao voto com a argumentação do costume, de que é a arma por excelência da vida democrática. É uma verdade, mas face a uma política cada vez mais oca votar é legitimar o poder de quem quase nunca o merece. O não voto consciente é pois um exercício de liberdade tão forte como a ida às urnas. 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 04 Junho 2009]

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tachos em nome do povo!


Em tempos de crise económica, importa perguntar se precisaremos de tantos deputados! Com a "disciplina partidária" tomada como método generalizado, para que servem os 230 "representantes do povo" na Assembleia da República?

Há dias foi notícia o facto de Manuel Alegre ter quebrado a "disciplina de voto" imposta pelo PS na votação do projecto do casamento dos homossexuais. Uma ovelha tresmalhada no rebanho! Noutros Partidos também é comum "disciplinar" os deputados em defesa de uma ou outra posição global de acordo com as "cores" políticas. Ora, se cada um dos 230 deputados eleitos à Assembleia da República vota segundo os "ditados" do seu Partido, porque haveremos de sustentar os ordenados de tantos?! Bastaria um representante por Partido com assento Parlamentar, um porta-voz de cada um que teria um peso diferente conforme o número de votos contados nas eleições.

Os "representantes do povo" (leia-se ironicamente!) representam verdadeiramente os seus Partidos, depois dos seus próprios interesses. Talvez se possa falar de uma inversão no caso do PCP, onde, por exemplo, Jerónimo de Sousa entrega 3 mil euros dos cerca de 3800 que ganha ao Partido Comunista. Nos restantes Partidos os salários vão inteiramente para os bolsos dos deputados, apesar da "disciplina partidária"...

Um deputado tem como salário-base 3708 euros, podendo além disso receber outros subsídios, nomeadamente de transporte se tiver residência fora de Lisboa. Deste modo o ordenado pode estender-se até aos 6 mil euros! É um bom emprego concerteza.

Lembro-me de um dos "quadros" do programa de humor da RTP1, "Os Contemporâneos", em que se caricatura uma deputada que se queixa do trabalho que dá ora levantar, ora sentar, ora bater palmas aos seus, ora apupar os "adversários"... Na verdade a maioria dos deputados só serve para isso mesmo! Há ainda umas Comissões onde alguns participam estudando, analisando, observando, meditando sobre tudo e nada.

Os que falam no Parlamento são sempre os mesmos, os mais mediáticos, os que têm o "dom da palavra"! Quase sempre as discussões da Assembleia giram entre um "pentágono" de figuras dos cinco Partidos representados, em trocas de graçolas que se assemelham a disputas de garnisés na capoeira. Fazem birras como putos no recreio que ofendem o voto do povo. Talvez por isso cada vez menos portugueses votem. São "tachos" que se tentam legitimar nas urnas.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 23 Outubro 2008]