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terça-feira, 21 de junho de 2011

Ministras das causas perdidas

Paula Teixeira da Cruz e Assunção Cristas são as duas mulheres da praxe no governo de Passos Coelho. O novo primeiro-ministro inova com o executivo mais jovem de sempre, mas repete o velho hábito de não se apostar nas qualidades femininas.

As duas escolhidas são ambas formadas em Direito e esperam-nas assuntos desde há muito tortos.

Paula Teixeira da Cruz assume o ministério da Justiça com o pesado fardo de credibilizar o poder judicial, além de dirigir as necessárias reformas no sentido de uma Justiça menos morosa e mais eficaz na aplicação da Lei. Isto num país onde candidatos a futuros juízes apanhados no “copianço” são primeiramente premiados com um 10 de nota e, posteriormente, depois do caso divulgado nas televisões, beneficiados com a repetição dos exames. Quando é a própria magistratura que confirma que o crime compensa, está tudo dito!

Assunção Cristas é a super-ministra da Agricultura, do Ambiente, do Mar e do Ordenamento do Território. A ex-professora universitária de apenas 36 anos terá que provar o que vale em áreas praticamente esquecidas nos últimos anos. As medidas tomadas no âmbito de vertentes tão importantes da vida sócio-económica do país vêm sendo meros rendilhados sem uma estratégia sólida e concreta. Logo se saberá se ela terá visão para alinhavar esse fundamental novelo de acção.

Mas numa altura de profunda crise, e com a necessária contenção financeira, não se poderá esperar que venha das mãos de Assunção a salvação para o tecido agrícola produtivo do país ou para o renascimento do interior. Isto depois de sucessivos executivos que ignoraram por completo o definhamento da agricultura e a deserção dos jovens das aldeias serranas e que nada fizeram para defender uma das actividades por excelência de um país à beira-mar plantado. Na verdade, pescadores e agricultores são espécies em vias de extinção! E não se augura uma poção mágica para que de repente as gentes corram em força de volta aos campos e aos barcos.

Dos ministérios do Ambiente poderemos eventualmente esperar mais ventoínhas eólicas espanholas nos montes, de resto a escassez de dinheiro passará, como sempre, as questões da protecção do planeta para segundo plano. E quanto ao Ordenamento do Território, parece missão impossível ordenar o que há tantos anos vem sendo desordenado!

Não é a qualidade e a aptidão das senhoras ministras que está em causa. O problema é a pesada herança de negligência que carregam dos seus antecessores. Ingrato presente o de Passos Coelho!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um novo Portugal... ou nem tanto...

Regresso a estas páginas após longa ausência motivada por afazeres profissionais no amanhecer de um novo Portugal! Ou então, é mais um acordar para o mesmo fado...

Passos Coelho ganhou as eleições, como se esperava, não conseguindo a desejada maioria absoluta. Uma meia vitória conquistada à custa dos ódios alimentados por José Sócrates: foi mais para escorraçarem o engenheiro do poleiro do que por confiança no ex-jotinha do PSD que muitos votaram no novo chefe do governo.

Mas no bulício destas eleições os grandes vencedores são Paulo Portas e o seu CDS/PP. O Paulinho das feiras catapulta-se, mais uma vez, para o governo depois de uma campanha em que usou a mestria habitual no trato com as pessoas comuns e o domínio costumeiro das artes de encantar os média.

Para lá dos votos contados, regista-se de novo a abstenção como factor que sobressai dos actos eleitorais dos últimos tempos. Entre os mais de 9 milhões de inscritos votaram somente cerca de 5 milhões. Uma abstenção próxima dos 60 por cento, como de resto se registou em 2009 nas anteriores legislativas.

E se é certo que alguns escolheram mesmo não aparecer para deixarem a sua cruz no boletim de voto, entre tantos abstencionistas muitos não moram já neste país. Nas contas eleitorais não entram os portugueses emigrados e que, mesmo tendo saído da pátria, nunca desapareceram dos cadernos de recenseamento. Conheço alguns que estão nestas condições e temo que nos próximos tempos mais lhes sigam as pisadas. Restar-nos-á outra saída para a crise?

Os próximos tempos serão duros, já sabemos, mesmo sem o mafarrico Sócrates! Aquilo que talvez tenha escapado a alguns daqueles que votaram no PSD em detrimento do PS é que o futuro está traçado pelo FMI e pela União Europeia no acordo que os dois partidos, e o PP, assinaram. Há medidas incontornáveis e se o governo não as cumprir só se vai agravar ainda mais o cenário.

Os milhões emprestados são uma esmola envenenada e todos teremos que a pagar, mesmo que não tenhamos culpa nenhuma do buraco em que o país está enterrado. Como sempre, doerá mais às vítimas do costume - os que menos fizeram para o miserável estado presente - do que aos endinheirados. E uns ficarão cá para lutar contra as adversidades e contra a desesperança que mina a ideia de que vêm aí dias melhores. Outros não terão outra tábua de salvação que não a emigração, repetindo-se a velha história dos nossos pais obrigados a fugirem à fome. 

[Artigo publicado no jornal Notícias dos Arcos de 09 de Junho de 2011]


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tachos em nome do povo!


Em tempos de crise económica, importa perguntar se precisaremos de tantos deputados! Com a "disciplina partidária" tomada como método generalizado, para que servem os 230 "representantes do povo" na Assembleia da República?

Há dias foi notícia o facto de Manuel Alegre ter quebrado a "disciplina de voto" imposta pelo PS na votação do projecto do casamento dos homossexuais. Uma ovelha tresmalhada no rebanho! Noutros Partidos também é comum "disciplinar" os deputados em defesa de uma ou outra posição global de acordo com as "cores" políticas. Ora, se cada um dos 230 deputados eleitos à Assembleia da República vota segundo os "ditados" do seu Partido, porque haveremos de sustentar os ordenados de tantos?! Bastaria um representante por Partido com assento Parlamentar, um porta-voz de cada um que teria um peso diferente conforme o número de votos contados nas eleições.

Os "representantes do povo" (leia-se ironicamente!) representam verdadeiramente os seus Partidos, depois dos seus próprios interesses. Talvez se possa falar de uma inversão no caso do PCP, onde, por exemplo, Jerónimo de Sousa entrega 3 mil euros dos cerca de 3800 que ganha ao Partido Comunista. Nos restantes Partidos os salários vão inteiramente para os bolsos dos deputados, apesar da "disciplina partidária"...

Um deputado tem como salário-base 3708 euros, podendo além disso receber outros subsídios, nomeadamente de transporte se tiver residência fora de Lisboa. Deste modo o ordenado pode estender-se até aos 6 mil euros! É um bom emprego concerteza.

Lembro-me de um dos "quadros" do programa de humor da RTP1, "Os Contemporâneos", em que se caricatura uma deputada que se queixa do trabalho que dá ora levantar, ora sentar, ora bater palmas aos seus, ora apupar os "adversários"... Na verdade a maioria dos deputados só serve para isso mesmo! Há ainda umas Comissões onde alguns participam estudando, analisando, observando, meditando sobre tudo e nada.

Os que falam no Parlamento são sempre os mesmos, os mais mediáticos, os que têm o "dom da palavra"! Quase sempre as discussões da Assembleia giram entre um "pentágono" de figuras dos cinco Partidos representados, em trocas de graçolas que se assemelham a disputas de garnisés na capoeira. Fazem birras como putos no recreio que ofendem o voto do povo. Talvez por isso cada vez menos portugueses votem. São "tachos" que se tentam legitimar nas urnas.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 23 Outubro 2008]