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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Deus nos livre de ficar doentes!

«Não há punhal, nem veneno; 
Mas o médico aí vem.» - Bocage 

Ir às Urgências é ficar lá um dia inteiro! Felizmente não estou habituada a estas andanças e espanta-me como é que as coisas podem funcionar a passe de caracol. É exasperante a calma de funcionários administrativos, enfermeiros e médicos! Fazendo todas as tarefas em câmara lenta como máquinas programadas para atrasar o mais possível o serviço.

Na realidade, a maior parte dos profissionais de saúde, no sector público, age tão descansadamente no conforto da certeza de que, independentemente da sua competência e eficiência, conservará o emprego. A pouca produtividade da Função Pública resulta da mentalidade perpetuada do "tacho" e da ideia do emprego para toda a vida. A actuação no sector privado, sujeito ao rigor que exige o princípio do lucro, é muito diferente.

É certo que a Saúde Pública não pode ser encarada por um prisma numérico, onde contem só as estatísticas, mas é preciso avaliar o desempenho dos seus profissionais e sancionar os maus comportamentos. Será difícil fazê-lo, até na medida em que, quanto pior funcionar o Serviço Nacional de Saúde, mais se ganha no privado, onde muitas vezes trabalham as mesmas pessoas.

Não deveriam ser médicos e enfermeiros todos os que o querem ser, mas apenas aqueles que estão talhados para ajudar o próximo e encarar estas profissões como missões que exigem a dose q.b. de sacrifício. Nas Faculdades o ensino deveria ter, além das linhas científicas teórico-práticas, uma preocupação de formar profissionais humanos, focalizando a necessidade de respeitar o paciente como pessoa pensante.

Cada vez que vou ao médico sinto-me uma criança de berço, tagarelando numa linguagem inalcançável para o senhor doutor, mais preocupado em prescrever uns comprimidos mágicos do que em perceber o mal que me aflige. Um médico conhecido diz-me, em tom de piada, que o seu papel não é curar os pacientes, mas garantir que eles voltam ao seu consultório. Terá menos graça por ser verdade.

Como sempre, há excepções e os bons profissionais, aqueles que se preocupam verdadeiramente com o bem-estar de quem os procura, deveriam ser os primeiros a exigir a moralização do sector. Mas na medicina, como em outros sectores, há um corporativismo irresponsável que não permite "ovelhas negras no rebanho" - nunca um médico assume que um seu colega errou um diagnóstico! É uma boa capa, resistente, para os erros próprios.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 19 Março 2009]

sábado, 24 de maio de 2008

Médicos com a faca e o queijo na mão


Saiu há dias a notícia de que, em média, os oftalmologistas portugueses fazem duas operações por semana nos Hospitais públicos. Um número interessante, sobretudo depois de um médico espanhol, que passou há pouco por Portugal, ter feito 234 operações aos olhos em cinco dias!

Pelos telejornais, como uma nova moda, multiplicam-se as notícias de pessoas que viajam para Cuba para serem operadas às cataratas ou a outras maleitas dos olhos de simples trato. Não estamos a falar de intervenções complexas, mas de procedimentos médicos que se simplificaram e que se praticam com a mesma qualidade e eficácia por cá. E isto torna ainda mais estranho o caso. O país de Fidel, tão pobre em tanta coisa, a fazer o que numa nação europeia - na era do choque tecnológico! - não se consegue.

Mais extraordinário é que o pacote operação/viagem fica mais barato do que o recurso a uma clínica particular em Portugal. Aqui ao lado, na Espanha potência económica, é também menos custoso operar. Chegou-se até à conclusão, depois do encerramento de várias maternidades nas zonas de fronteira, que é menos dispendioso para o Serviço Nacional de Saúde suportar os gastos com o envio das grávidas para Badajoz do que pagar o seu internamento entre portas.

Nuestros hermanos parecem saber governar-se muito melhor do que nós. E ao que parece são mais dedicados ao trabalho! Não se pense que é por um espírito de missão que um espanhol opera 234 pessoas em cinco dias! Também não é necessariamente por preguiça que um português se dedica a duas singelas operações no mesmo período. É porque sabe que não há o risco de um médico-bom-samaritano vir romper a confortável média.

As listas de espera persistem gravosamente por não haver nenhum interesse na classe médica em resolver o problema. Quantas mais dificuldades na Saúde pública, mais clientes fogem para o sector privado e aí é só dinheiro a entrar. Até porque o corporativismo da classe não dá espaço a uma real concorrência de preços. Dir-se-á que os médicos têm a faca e o queijo na mão. Perigoso, sobretudo quando nós somos o queijo!

Convenhamos que não é fácil melhorar os índices de produtividade dos clínicos. Não é uma profissão que possa funcionar com o picar do ponto e tabelas de rendimento. Infelizmente, o humanismo que uma tal actividade requer parece perdido entre cifrões e valores a receber por horas extraordinárias. É preciso lembrar-lhes do Juramento de Hipócrates que tão convenientemente sabem citar quando lhes apraz.

Conheço a história de um médico, já falecido, que costumava deslocar-se às aldeias, nos tempos de antanho, e que fazia operações às cataratas nas bermas das estradas, sem com isso nada receber ou recebendo o que as pessoas queriam ou podiam dar-lhe. Não é esta generosidade que se pede aos médicos de hoje. Basta-lhes cumprirem interessadamente o princípio do "bem do doente" que Hipócrates determina.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de  22 Maio 2008]