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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

À deriva...


Morreram há dias cinco pessoas numa praia do Algarve. Caiu-lhes em cima uma arriba há muito sinalizada como estando em risco de derrocada. Ninguém quis saber do aviso e agora, entre responsabilidades sacudidas do capote, choram-se os mortos...

É um filme que se repete ad eternum neste malfadado país, onde caiem pontes com gente em cima, pedras em cima de gente, e não há culpa nenhuma! Morrem crianças abandonadas à crueldade ou afogadas em canos de esgoto destapados por negligência ou desinteresse sem que haja responsabilidades de quem quer que seja.

No país de todos os inocentes é só face às vítimas ainda quentes que se esboçam planos de supervisão rigorosa e de conserto empenhado. Enquanto se esmiuçam os quês e porquês nos telejornais, aparecem técnicos e especialistas avisados, ministros e candidatos, comentadores de tudo sabedores e o povinho como mirone da tragédia da sua vida. Nem na praia, no descanso das férias, se está a salvo da incompetência!

Foram precisas cinco mortes para todos sabermos que há mais falésias em risco de ruírem. E a pergunta que a todos assalta é porque raio não foram deitadas abaixo perante a certeza, seja mais tarde ou mais cedo, da derrocada? Neste país é mais fácil construir um palácio em cima das dunas em zona costeira protegida do que destruir o que não traz benefícios a ninguém.

A costa portuguesa vive devotada ao abandono, ao gosto de banhistas e turistas, dos fardos de droga que nela atracam e dos imigrantes vindos de África à deriva. E o desleixo, o deixa andar até ver, é extensível a tudo o resto. Porque não temos governantes nem líderes ou dirigentes, temos políticos profissionais e "tachos" para filhos e afilhados. Porque não temos uma real democracia, mas um povo maioritariamente ignorante e pouco preocupado com isso. Pelo meio há a elite dos esclarecidos, aqueles que já sabiam que a arriba ia cair, mas que mesmo assim nada fizeram. Porque nada fazer é o conforto deles quando não enfrentam os problemas comezinhos, a falta de tostão e a desesperança.

Somos irremediavelmente uma nação à deriva sempre perto do naufrágio. Resta saber quando tudo isto irá de vez ao fundo...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 03 Setembro 2009]

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Democraticamente vai compensando o crime...


Pela primeira vez na história da nação temos um banqueiro detido. Oliveira e Costa está em prisão preventiva depois do escândalo do BPN, sendo suspeito do desvio de mais de 66 milhões de euros. Será porventura o "cabeça-de-manada" que é preciso flagelar para abafar o caso. Mas alguém acredita que será feita verdadeiramente justiça?

Em Fevereiro deste ano Oliveira e Costa divorciou-se convenientemente e passou todos os seus bens para o nome da esposa. Tanta "generosidade"! O ex-presidente do BPN abdica de todo o seu património em benefício daquela que foi a sua companheira durante mais de 40 anos. É pois um Oliveira e Costa subitamente "pobre" que está entre as grandes, embora numa cela VIP!

Há dias Fátima Felgueiras deixou o Tribunal em estado triunfal depois de ter sido condenada a 3 anos de prisão com pena suspensa (ou seja, não porá os "costados" na cadeia, embora tenha fugido para o Brasil!) e a uma multa de 2 mil euros. Percebe-se a euforia da senhora perante a "bondade" da justiça, já não se compreende a falta de vergonha! Ela foi condenada por ter usado o cargo de presidente da Câmara de Felgueiras em benefício próprio, mas nem assim deverá perder o mandato. No fim do julgamento o advogado da senhora falou aos jornalistas com lágrimas nos olhos, emocionado com a inacreditável benevolência do senhor juiz!

Daqui a uns meses, quando a tempestade amainar, Oliveira e Costa deverá regressar para o regaço da esposa endinheirada com o sorriso dos "inocentes"...

Oliveira e Costa foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva e Dias Loureiro, actual conselheiro de Estado do Presidente da República e ex-ministro do governo PSD, foi administrador da Sociedade que geria o BPN. Outros antigos ministros estiveram na gestão do Banco que foi nacionalizado com um "buraco" de 700 milhões de euros. Deste montante mais de 300 milhões dizem respeito a operações "clandestinas". É claro que agora ninguém sabe de nada!

Se fizéssemos uma "árvore" de todas as ligações entre políticos e ex-políticos com as empresas de maior peso na economia nacional, que tramas não poderíamos tecer...

Na política "em nome do povo" enriquece-se, seja durante, seja depois de terminar mandatos, depois de servir "interesses" que valem a entrada nas administrações das grandes empresas ou dos Bancos. Se nos devotássemos a contar o património de muitos daqueles que passaram pelas cadeiras do poder, antes e depois de aquecerem os lugares, poderíamos traçar o "mapa do tesouro"... 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 27 Novembro 2008]