Há dias o país acordou chocado com o alegado suicídio de um miúdo de 12 anos que se terá atirado ao rio por ser vítima de violência dos colegas na escola. «A primeira vítima mortal de bullying em Portugal», anunciou-se com pompa!
Neste momento já não é certo que o rapaz de Mirandela se tenha atirado ao rio com a intenção de morrer, mas o bullying continua como tema a preencher páginas de jornais e debates televisivos. Até porque entretanto houve um professor que se atirou de uma ponte por alegadamente não aguentar as agressões verbais que sofria dos alunos na sala de aula.
São infelizmente velhas histórias, só o termo bullying é que é novo. Já no meu tempo - começo a ter alguns cabelos brancos que me permitem dizê-lo assim - havia violência na escola, entre alunos e professores, entre colegas. Havia as "ovelhas negras" mal comportadas que perturbavam as aulas, havia bulhas com sangue, cabeças e vidros partidos no recreio, só não havia pedo-psiquiatras e tantos jornalistas para analisar os casos.
Na altura tudo aquilo era encarado como normal, como se fizesse parte do ritual necessário do crescimento para a entrada na vida adulta. Os pais eram chamados à escola e indignavam-se, mas voltavam para casa com os filhos sem questionarem ou pensarem nas consequências do que lhes acontecia na escola. Hoje também é assim nalguns casos, mas para os que se esquecem há sempre um canal com um especialista iluminado a discorrer a teoria das maleitas para toda a vida.
É claro que o modo como se passa pela escola define irremediavelmente o futuro de cada qual. Não se pode ser vítima de agressões contínuas sem ficar afectado por isso. Como não se pode conviver com a violência diariamente, em casa, nos transportes públicos, na televisão, na confusão do trânsito, nos locais de trabalho, sem se carregar esse peso.
Vivemos numa sociedade de violências extremas, físicas e psicológicas. Não é estranho que essa violência alastre para as escolas. Crianças e adolescentes são o espelho mais cruel, porque mais autêntico, da realidade. Esboços inacabados, absorvem todas as influências, boas ou más. E nenhum adulto pode descartar as suas responsabilidades, nem os pais, nem os professores, nem cada um de nós que diariamente nos movemos na indiferença já calejados com a crueza dos dias.
[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 Março 2010]
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