Mostrar mensagens com a etiqueta aluno. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta aluno. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 26 de março de 2010

Velhas histórias...


Há dias o país acordou chocado com o alegado suicídio de um miúdo de 12 anos que se terá atirado ao rio por ser vítima de violência dos colegas na escola. «A primeira vítima mortal de bullying em Portugal», anunciou-se com pompa!

Neste momento já não é certo que o rapaz de Mirandela se tenha atirado ao rio com a intenção de morrer, mas o bullying continua como tema a preencher páginas de jornais e debates televisivos. Até porque entretanto houve um professor que se atirou de uma ponte por alegadamente não aguentar as agressões verbais que sofria dos alunos na sala de aula.

São infelizmente velhas histórias, só o termo bullying é que é novo. Já no meu tempo - começo a ter alguns cabelos brancos que me permitem dizê-lo assim - havia violência na escola, entre alunos e professores, entre colegas. Havia as "ovelhas negras" mal comportadas que perturbavam as aulas, havia bulhas com sangue, cabeças e vidros partidos no recreio, só não havia pedo-psiquiatras e tantos jornalistas para analisar os casos. 

Na altura tudo aquilo era encarado como normal, como se fizesse parte do ritual necessário do crescimento para a entrada na vida adulta. Os pais eram chamados à escola e indignavam-se, mas voltavam para casa com os filhos sem questionarem ou pensarem nas consequências do que lhes acontecia na escola. Hoje também é assim nalguns casos, mas para os que se esquecem há sempre um canal com um especialista iluminado a discorrer a teoria das maleitas para toda a vida.

É claro que o modo como se passa pela escola define irremediavelmente o futuro de cada qual. Não se pode ser vítima de agressões contínuas sem ficar afectado por isso. Como não se pode conviver com a violência diariamente, em casa, nos transportes públicos, na televisão, na confusão do trânsito, nos locais de trabalho, sem se carregar esse peso.

Vivemos numa sociedade de violências extremas, físicas e psicológicas. Não é estranho que essa violência alastre para as escolas. Crianças e adolescentes são o espelho mais cruel, porque mais autêntico, da realidade. Esboços inacabados, absorvem todas as influências, boas ou más. E nenhum adulto pode descartar as suas responsabilidades, nem os pais, nem os professores, nem cada um de nós que diariamente nos movemos na indiferença já calejados com a crueza dos dias.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 Março 2010]

quinta-feira, 20 de março de 2008

O medo dos professores

Os professores andam revoltados com a ministra da Educação e muitos parecem dar-lhes razão. Ninguém sabe muito bem contra o que é que eles protestam, na realidade nem sequer eles o sabem, mas qualquer desculpa serve para mandar vir com o governo.

Pelos jornais vai-se dizendo que a economia portuguesa cresceu 1,9 por cento. É um número que não diz grande coisa ao cidadão comum, afundado nas suas dívidas e nas dúvidas quanto a um futuro melhor. E com os bolsos vazios, a educação é a menor das preocupações, mesmo daqueles que são pais e que, ao invés de pensarem numa boa formação para os seus filhos, dão voltas à cabeça para inventarem dinheiro para os gastos com creches e escolas que deveriam ser gratuitas. Também entre os que fazem parte do sistema, aquilo que menos interessa é a melhoria das condições de ensino. Importam apenas as regalias laborais e a perda de impunidade dentro de um regime educacional que, consensualmente, é avaliado como mau. Dá-se nota negativa ao sistema, chumbam-se alunos, mas, ó sacrilégio, não se podem avaliar os senhores professores!

Na recente manifestação que houve em Lisboa, um professor, quando abordado por um jornalista da SIC sobre as razões que o levavam a juntar-se ao protesto, teve que esperar uns largos segundos antes de responder. No imediatismo televisivo foi ao cabo de uma eternidade que o docente revelou que marchava pela rua "basicamente contra a avaliação". E é basicamente isso que move a classe, o medo de serem avaliados. E só teme a avaliação quem não está bem preparado para a sua tarefa.

Em 17 anos de escola pública tive a oportunidade de conhecer todo o tipo de professores, desde o "stôr porreiraço" que faltava muito, até ao "bon vivant" que fumava na sala de aulas, passando pelo catedrático que debitava a matéria e exigia que a decorássemos. Tive alguns bons professores que me marcaram para sempre, mas devo dizer que foram muito poucos. Grande parte dos profissionais do ensino estão mal preparados para a função, não apenas por falta de conhecimentos, mas em muitos casos por falta de vocação. Não ensina quem quer, ensina quem pode.

E se é certo que temos um sistema de ensino que prepara mal os estudantes para a vida profissional, como poderemos esperar que os professores, moldados dentro desse mesmo sistema, sejam bons na sua profissão? Para terminar de vez com este ciclo vicioso, é urgente impôr alterações e começar pela avaliação daqueles que são o principal sujeito da educação é, para todos evidente, fundamental.

Avaliarem o nosso desempenho e atribuírem-nos uma nota é o primeiro passo para a melhoria pessoal e logo do meio onde nos inserimos. É claro que exige mais de nós, enquanto a mediocridade não assinalada é demasiado fácil...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 20 de Março de 2008]