sexta-feira, 25 de abril de 2008

A Revolução cumprir-se-á!


A Revolução dos Cravos foi há 34 anos. Mais do que eu levo de existência. Já nasci depois do 25 de Abril de 1974, depois da PIDE, da mordaça ao livre pensamento, da censura do lápis azul. Mas significará isso que já não há espartilhos para as ideias que desafiam os poderes instalados?

As mordaças de hoje são económicas. As torturas não se fazem no corpo, mas impedindo o acesso a empregos ou despedindo aqueles que ousam expressar o seu direito à crítica. Não há prisões políticas, mas há processos nos Tribunais quando alguém se atreve a dar o nome ao descontentamento. Há multas legisladas para os que rompem a norma da apatia. Às ovelhas tresmalhadas do rebanho atira-se o cajado ao lombo na reprovação por se desviarem do trilho.

Não vivi os tempos da repressão do regime de Salazar, nem a pobreza ou a fome. Dirão por isso alguns que não sei do que falo. Que é pura petulância de quem não sofreu privações. De quem nunca teve que dividir uma sardinha com os irmãos.

Não podemos deixar que o fim da miséria flagrante torne aceitável que se continuem a abafar as vozes críticas. E numa altura em que as condições económicas pioram, não devemos esquecer-nos de, a par da defesa de melhores salários e de situações laborais mais justas, exigir também uma efectiva liberdade de expressão. É certo que a liberdade começa na nossa cabeça e há ovelhas talhadas para seguirem o carreiro, sem levantarem nunca o pescoço do chão. Mas mesmo essas têm o direito de parar na dúvida, de temer que a líder do rebanho as guie para a boca do lobo, sem que com isso sejam escorraçadas.

Todos temos ainda muito a aprender com a grande lição de Abril. Sobretudo nos concelhos rurais, onde os que criticam são ainda vistos como inimigos figadais, em vez de opositores leais. E se o povo diz que "cão que ladra não morde", publicamente, e em particular politicamente, é mais confortável lidar com audiências amestradas de améns.

Ora o facilitismo nunca é bom conselheiro e depois de 32 anos é tempo de o poder local assumir a definitiva maturidade. Dar o passo fundamental em nome do verdadeiro progresso das regiões periféricas. Se muito foi conquistado desde as primeiras eleições autárquicas em 1976, é preciso olhar para o que há por fazer. Acomodar-se à sombra dos êxitos e da música suave dos pássaros é parar no tempo.

A contestação é o primeiro motor do desenvolvimento e é também um acréscimo de responsabilidade. Quem é criticado tem que responder com obra feita. E se é muito mais fácil silenciar os protestos, é mais inteligente permitir-lhes que se manifestem. As palavras reprimidas acumulam-se até à explosão! Os gritos calam-se até que fartem. Como o calor sufocante de dias serenos cinzentos que descamba em trovoada. Tarde ou cedo, a revolução far-se-á!

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