quarta-feira, 27 de abril de 2011

De ciganas e doutores...

Numa destas manhãs, numa refinada pastelaria, uma cigana velha de saias pretas até aos pés e lenço na cabeça, entra para romper a normalidade. A empregada aborda-a, mal a vê entrar, e diz-lhe que ali não pode pedir esmola. Eu vim para comer! É a resposta da mulher com ar de feirante. Não há na senhora assim despeitada qualquer ar de indignação, nem de espanto. Uma questão de hábito, talvez. E se o povo vai dizendo na sua sabedoria que o hábito não faz o monge, os dias de hoje dizem precisamente o contrário...

É aquilo que parecemos que conta no trato social. Cada um de nós só está preparado para ver do outro aquilo que quer e o que encontra à superfície. E ora uma cigana é uma cigana. Um fato e gravata um senhor doutor! Pode ser um simples desempregado, acabado de chegar de uma entrevista de emprego que correu mal, mas só ele o saberá enquanto paga o café com os últimos cinco euros que tem para o resto do mês...

Triste nação esta onde os fatos e os títulos destrinçam o bem do mal. Como se os senhores doutores e os senhores engenheiros tivessem direito a uma vénia constante, a um engraxar contínuo dos seus egos privilegiados! Os demais que se curvem como escravos, implorando o direito de pagar um galão e uma torrada numa pastelaria chique.

Em Inglaterra, o anterior primeiro-ministro nem tinha direito ao nome próprio integral, era tratado pelo diminutivo Tony [Blair]. Como se por cá falássemos do Zé Sócrates! Mas não. Temos o engenheiro José Sócrates. O professor Aníbal Cavaco Silva. O doutor fulano de tal e o doutor sicrano de lá...

Numa sociedade que parece chafurdar na lama densa da incompetência, esta urgência imperiosa de um título antes do nome é um modo de atribuir importância e idoneidade a quem de facto não a tem. Não falo dos nomes citados acima em concreto, mas da generalidade de um país onde as instituições públicas estão desacreditadas. Por isso é preciso, perante a incapacidade, recordar continuamente que aquele fulano é um senhor doutor! Logo imbuído de uma reputação inabalável!

Não deve haver povo como o nosso onde se curve tanto a cabeça perante as elites. Andamos vergados ao peso de doutores e engenheiros! E por isso condescendemos. Tudo lhes é permitido. A incompetência, a incapacidade de acção, a desumanidade, o desinteresse pela pobreza alheia, a roubalheira descarada, a usura, a prepotência... Aos sete pecados capitais têm direito! 

E depois queixamo-nos dos nossos pobres ordenados em comparação com os desses grandes ricos doutores. Lamentamos a crise na desesperança de dias melhores e na descrença de que venha um Messias para solucionar todos os problemas. Sabemos que não há milagres e que cabe a cada um de nós contribuir para a mudança. Mas oh, que árdua tarefa! Fiquemos antes pelo sofá, mirando a TV, remoendo todas as dores...

Agir no sentido de um novo rumo não é só exigente, mas coloca-nos também a questão: seríamos capazes de fazer melhor do que aqueles que regulam as nossas vidas? Achamos sempre que pior não é possível. E duvidamos se conseguiríamos escapar à vertigem do egoísmo tendo o mundo nas mãos. O poder corrompe, diz-se. Os que o têm dirão sempre que não, olhe que não...

[Publicada no jornal Notícias dos Arcos de 14 Fevereiro 2008]

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