quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O exemplo das mulheres da "Afonso"


Contra a maré de notícias tristes sobre a crise, a Agência Lusa destacava há dias a fábrica de Paçô (Arcos de Valdevez) "Afonso - Produção de Vestuário" como um exemplo de sobrevivência em tempos difíceis. Um caso que merece aplauso e evidência porque um grupo de mulheres preferiu tomar as rédeas ao futuro em vez de esperar milagres políticos ou divinos.

Quando em 2004 os patrões alemães da fábrica de Paçô tentaram deslocalizar os meios de produção para a República Checa, as operárias não permitiram a saída das máquinas, vigiando as instalações dia e noite. No início de 2005, a líder dessas trabalhadoras, Conceição Pinheiro, conseguiu convencer os germânicos a venderem-lhe a fábrica por um simbólico um euro. Desde então a "Afonso" já contratou mais 10 mulheres (são 99 ao todo) e não dá sinais de fraqueza em mar adverso.

Numa altura de tanta desesperança, este caso confirma como é possível resistir à intempérie desde que se assumam responsabilidades por isso. As heroínas da "Afonso" não ficaram à espera que os políticos descessem dos poleiros para as ajudarem. Não foram com lamúrias à boleia de interesses sindicalistas, para as ruas protestar ou pedinchar. Defenderam os seus postos de trabalho e, logo estes assegurados, não se sentaram à sombra do emprego garantido. Comprovaram antes o seu mérito e mais-valia, produzindo e contribuindo para a sustentabilidade da fábrica.

Neste grupo de combatentes ressalta o nome de Conceição Pinheiro que não se ficou pelas meras palavras contestatárias e reivindicativas, mas que agiu, decidindo tomar o poder pelo seu futuro, e pelo das suas companheiras de luta, nas mãos. Não se chegaram à frente partidos, autarcas ou ministros. Foi uma mulher, mãe, esposa, sem canudo, que contrariou todas as expectativas de falência.

É sempre bom ver os Arcos serem notícia por boas razões. Quando isso acontece quase nunca há políticos pelo meio. Os interesses partidários e eleitoralistas apodrecem tudo aquilo em que tocam, não podemos por isso fiar-nos em engravatadas boas vontades.

Enquanto deputados e governantes fazem de garnisés de capoeira no Parlamento, certos dos seus confortáveis salários ao fim do mês, as horas não param e a crise vai flagelando sempre os mesmos. E não vale a pena chorar! Pode-se ficar à espera de uma esmola estatal ou de uma decisão afumada lentamente nos corredores do poder. Nada é seguro, só a certeza de que a nossa vida é o que fizermos dela.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 12 de Fevereiro de 2009]

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