sexta-feira, 11 de março de 2011

O país de todas as inocências

Somos todos inocentes! Ninguém tem culpa de nada neste malfadado país. Um pouco como todos os criminosos que vão parar à cadeia, nunca ninguém fez mal algum...

Caiem pontes, morrem pessoas e os Tribunais não conseguem apurar responsáveis! Há cheias porque choveu durante um dia inteiro e o governo atira a culpa às Câmaras, nas Câmaras devolve-se a bola ao governo. Há Apitos Dourados com histórias de fruta e café com leite, jantares de lampreia e ouro oferecido a árbitros, mas são todos inocentes! Há presidentes de Câmara envolvidos em negócios imobiliários obscuros ou enchendo os bolsos com sacos azuis, mas não se passa nada. Os poucos que vão a Tribunal pagam a defesa pelos males que, claro, nunca fizeram, com os dinheiros públicos. E está muito bem! O povo cospe um escarro e olha para o outro lado.

Há lavagens de dinheiro, fraudes fiscais, esquemas de malandragem que todos vêem, mas nunca há condenados. Todos inocentes! Os políticos que enriquecem em cargos públicos, que constróiem moradias e compram outras no Brasil, que arrepanham para si, como monarcas dos seus pequenos feudos, presidências atrás de presidências. Todos anjos da moralidade! Vítimas da inveja e da maledicência!

O desemprego vai crescendo e os salários minguando, mas ninguém tem culpa. É da crise, essa Deusa madrasta que aparece sem mais nem porquê, implacável como um Diabo à solta!

Se por azar algum senhor doutor ou engenheiro senhor vai a julgamento, perdem-se os crimes, alegados, diz-se sempre, mesmo que até um cego os veja, entre requerimentos, pedidos de recusa, incidentes processuais, manhas de advocacia que desviam a análise para o processo de justiça, pois na verdade o incumprimento da Lei não interessa nada!

De quando em vez há uma demissão, uma remodelação, à laia de chicotada psicológica. No futebol é o treinador quem arca sempre com todas as culpas, enquanto os dirigentes são madonas intocáveis nas cadeiras do poder. Por vezes há uma limpeza de balneário, mas é sempre o mexilhão quem se trama. Como na vida pública.

Na inocência de todos os dias joga-se no Euromilhões acreditando que o dinheiro trás a felicidade. Menos o pobre, claro está, porque esse nem direito ao sonho tem. Esse nem sequer pode reclamar-se inocente. Sem tostão, logo sem voz, carregando às costas todas as culpas do mundo, um cristo crucificado.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 06 Março 2008]

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Povo de brandos costumes


Pobres, mas felizes! Eis o retrato dos portugueses traçado por um estudo a que a televisão deu eco há dias. Este estudo constata que muitos portugueses vivem próximo do limiar da pobreza, com ordenados insuficientes para custear as despesas diárias. Apesar disso, definem-se felizes e bastariam mais uns euros para aumentar o contentamento para níveis de felicidade. Somos um povo pouco exigente! Demasiado brandos com nós próprios, excessivamente condescendentes com os que nos governam.

Começa na escola esta apetência pelo facilitismo. Há pais que ficam indignados quando os seus filhos não passam de ano, preocupados com o chumbo na perspectiva social e nada interessados em saberem se é merecido. Porque o que importa é o canudo, o carimbo de doutor, engenheiro ou senhor professor. Tanto faz se é "comprado" em Universidades privadas que funcionam como supermercados de habilitações ou se é um daqueles cursos inventados ao sabor do vento sem servir para nada.

Nos últimos tempos parece ter o próprio ministério da Educação apostado na facilidade nos Exames Nacionais. Se há más notas a Matemática e a Português que se exijam menos competências aos alunos! Não chegando as cábulas que levem máquinas de calcular para fazerem as contas por eles e que não se façam perguntas difíceis para não traumatizar os meninos! 

Quando a competitividade é o motor dos dias actuais estamos a formar burros, mentes abertas a Ipods, SMS, Internet, mas tacanhas nas competências básicas. Ora, não podemos esperar um futuro muito risonho, nem tão pouco o podem os jovens que na Escola se vêem privados da exigência que depois lhes será demandada no mercado de trabalho.

Mas não há crise! Porque a felicidade de um português requer pouca coisa – uma casa, um carro, a TV Cabo e um dinheiro a mais para umas cervejas enquanto se inveja o Cristiano Ronaldo e se jogam dois euros no Euromilhões a ver se se fica rico! É com a sorte que se conta quando não há engenho ou capacidade.

Não é à toa que nos apelidamos de povo de brandos costumes. A brandura é orgânica e traço letal do português. Está-nos nos genes, alimentada por um clima temperado e por uma paisagem amena. Na nossa História fomos ciclicamente adormecidos, ora pela fartura dos Descobrimentos, ora pela míngua do Estado Novo. A espaços houve heróis que fizeram a diferença - Afonso Henriques, o Infante D. Henrique, Salgueiro Maia, entre outros -, mas a maioria fica-se pela mediocridade. Não admira que sejamos hoje um povo à deriva, sem esperança, sem soluções para deixar a crise.

Historicamente fomos sempre apanhados pelos acontecimentos e deixamo-nos ir como galhos na corrente do rio. Reis, ditadores, presidentes, primeiros-ministros, deputados, autarcas, todos agarrados ao poder, governando os seus próprios interesses, e o português fechando os olhos no sono brando de quem só quer comida para a boca, um pouco de calor na alma, uns trapos na moda para manter a aparência e nenhum peso na cabeça.

Criticamos os políticos que temos, mas na verdade mais não merecemos quando não exigimos de nós próprios a excelência.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 16 Julho 2009]

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Natal em tempos de crise


É tempo de Natal, tempo de compras desenfreadas. Centros comerciais e lojas apinhados de gente. Ninguém diria que há pr'aí uma crise...

Natal é Natal e o bacalhau há-de se pôr na mesa seja como for. Alheias à economia combalida do mundo, correm prendas em embrulhos natalícios. A ferida só deverá arder a alguns depois da ceia, quando já não houver dinheiro para o Ano Novo. Porque esta é a quadra do gastar. Comprar, comprar, comprar.

As prendas tomaram conta do Natal e não parece possível recuperar o espírito que deveria definir a época. O consumismo é a nova ordem do mundo. O Ter dita o modo como somos tratados pelos demais. Quem nada possui, não merece sequer um olhar de compaixão.

De manhã cedo há sem-abrigos ainda a dormir, se se pode realmente dormir na rua com tanto frio, à porta de lojas, cobertos com mantas ou embalagens de cartão. Passamos ao lado, apressados, tropeçando nesses sem-nada sem hesitar um segundo, pensando na próxima prenda a dar a quem já tem tudo. Contamos trocos e às vezes deixamos cair uma moeda insignificante na palma de uma mão pedinte suja. Quem dá o que pode a mais não é obrigado, diz-se. Não é verdade! Temos todos o dever de fazer mais. Dar uma esmola é o mais fácil, o melhor para quem a dá, não necessariamente para quem a recebe. Que conforto se compra ou que fome se mata com um euro ou dois?

As esmolas, os Rendimentos Mínimos e Subsídios "ad eternum" não são benéficos, nem para a sociedade, nem para quem os recebe. Propiciam uma dependência da pena alheia que não permite ou incentiva a saída do "buraco". Diz a parábola que, em vez de dar o peixe, se deve ensinar a pescar, e essa é a preocupação que deve primar numa sociedade que lida com a pobreza. Mas é certo que a miséria alheia é um conforto para a maioria e para os que a governam. Valoriza a vida de quem tem o mínimo e facilita o mando dos governantes que ganham votos atirando migalhas aos pobres.

Em 2009, ao que indicam as previsões económicas, estaremos todos mais pobres. Dizem que o novo ano terá consequências "terríveis" para a economia mundial, quando o impacto da famigerada crise atingir finalmente os bolsos das pessoas. Os miseráveis, que nada ou pouco têm, continuarão na sua saga de tristeza, enquanto os remediados, como de costume, serão os condenados a custear as turbulências financeiras.

Talvez o desenfreamento das compras natalícias faça afinal mais sentido neste do que em outros anos. Ninguém sabe o que nos espera no virar do calendário. Que se goze estão o melhor bacalhau da quadra esperando-se no sapatinho inspiração para afrontar as batalhas que aí vêm. 

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 18 Dezembro 2008]

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Com a benção do Papa e do Benfica...

Coincidência ou não, o governo decidiu aumentar os impostos na ressaca da festa do título do Benfica e na semana em que o Papa visitou Portugal. Com a benção da fé e dos benfiquistas, quase passou despercebida a maldade de José Sócrates (com o devido assentimento "culpado" de Passos Coelho)...

Não haveria melhor altura do que esta para anunciar aquilo que o governo socialista prometeu não fazer: aumentar os impostos! Com o povo adormecido na benção de Bento XVI e ainda a festejar o feito de Jesus no comando do Benfica. De resto, neste povo de "brandos costumes", e o ministro da Economia logo o disse numa entrevista a um canal de televisão norte-americano, não se esperariam grandes revoltas. Quando está em causa irem-lhe descaradamente aos bolsos, o português queixa-se, mas segue em frente. Só mesmo a religião e o clube do coração para causarem revoluções!

Há mais indignação com o casamento homossexual promulgado contra vontade por Cavaco Silva, medida que só diz respeito a quem é homossexual e quer casar, do que com a decisão do governo de aumentar o IVA em um por cento, até nos produtos de primeira necessidade, como o pão. Homossexuais ou não, todos comemos pão!

José Sócrates explicou que é preciso fazer um «esforço colectivo» para atravessar esta crise. Ora o pão custa mais a quem ganha menos do que a quem ganha mais! O Zé Povinho já anda com o cinto ao pescoço, estrangulado pelas dívidas e pela falta de dinheiro para as suportar, será justificável pedirem-se-lhe mais sacrifícios? Não é! Não é aceitável que os pobres de nós carreguemos com a nação empobrecida às costas enquanto as classes políticas e os abençoados da sociedade vão gerindo menos lucros e sacudindo as migalhas de culpa do capote pelo "buraco" económico do país.

Olhando para a vizinha Espanha vemos o primeiro-ministro José Luis Zapatero anunciar o corte de 15 por cento nos rendimentos dos membros do governo. Tão diferente esta Ibéria socialista...

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 20 Maio 2010]
 

sexta-feira, 30 de abril de 2010

De Greves

Abril foi o mês das greves! Foram agendadas 28 greves e 19 manifestações para o mês que finda. É a revolta contra as políticas do governo, particularmente contra o congelamento dos salários decretado para a Função Pública. Quem é que não quer afinal ganhar mais? Eu bem queria, mas nem greve posso fazer para o gritar aos ouvidos de quem não tem nada a ver com isso...

As greves angustiam-me, as que me afectam directamente e complicam a minha "vidinha"! Quando quero deslocar-me para o meu local de trabalho, com os olhos ramelosos do pouco sono, perturba-me não ter comboio à hora estipulada. Porque terei eu que levar com as reivindicações dos funcionários da CP quando já paguei o meu passe e não tenho culpas pelas suas angústias e nem qualquer poder de decisão relativamente ao que eles ganham ou às horas que trabalham?! Não é apenas injusto, é absurdo que milhares de pessoas sejam afectadas pelos protestos de determinadas classes profissionais.

São, é certo, uma conquista de Abril, direito e liberdade consagrados na democracia, mas as greves são também mecanismos de insustentável paralização de uma sociedade. Em áreas estratégicas, como os transportes, têm consequências graves na economia, promovendo uma quebra de produtividade e milhões de euros de prejuízos. Poder-se-á aceitar que uma classe tenha tamanho peso na dinâmica de uma cidade, de um país?

Eu não posso fazer greve - como poderiam os jornalistas fazer greve: quem daria a notícia? Trabalho no sector privado e o mais que posso fazer é queixar-me de ganhar pouco, mas pianinho... E por isso não posso devotar solidariedade àqueles que usam e abusam da greve como forma de pressão para verem os seus interesses particulares garantidos. Como poderei eu entender que os senhores pilotos da TAP, que ganham em média 8600 euros brutos por mês, façam greve para ganharem mais mil euros?! No caso destes nem sequer foi preciso fazer greve, bastou a ameaça para conseguir, senão os mil, mais alguns euros para o bolso.

As greves são cada vez mais instrumentos do corporativismo, usando a maior medida do desconforto causada ao Zé Povinho como veículo para atingirem os seus fins. Os grevistas raramente são os que realmente têm razões de queixas e condições laborais quase esclavagistas, esses trabalham e não podem piar... E por isso a sua legitimidade vem-se perdendo, são vistas por quem não as pode fazer como pretextos para a preguiça, para se "baldar" ao trabalho. É preciso por isso encontrar outras formas de protesto que se reflictam mais justamente nos verdadeiros culpados e menos nos pobres dos coitados que nada mais podem do que ir trabalhar.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 29 Abril 2010]