segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O tempo de ser Agosto


Agosto, o mês das férias! O tempo das festas e do regresso a casa para muitos emigrantes. A esta pátria que os acolhe como estrangeiros, e a que voltam como forasteiros. É um retorno ingrato, porque os faz viver o vazio de pertença a lugar nenhum.

Vivo esta dualidade como migrante, deslocada da terra-mãe. Sempre que volto, há aquele sentimento de regresso ao útero, ao colo maternal e às vivência familiares, mas há também a estranheza de quem chega como elemento de fora do cenário - um corpo estranho na rotina que flui sem nós. E há o sentimento de perda - perdeu-se o tempo dos lugares, das pessoas, o mundo da infância e da juventude correu alheio à nossa ausência. E dói. Dói reencontrar aqueles que amamos e perceber que a vida deles existe sem nós, que a nossa vida existe sem eles.

No regresso às terras que nos matam a fome e a sede vivemos com esse buraco no peito, a certeza da falta e da distância. É a saudade a abraçar constantemente os que se aguentam longe do ninho onde nasceram. O sal que perpetua a inconveniência de ser de lugar nenhum.

E por isso Agosto é também o tempo da não vida, do sol, da praia, das festas na aldeia. O tempo de ser do momento na leveza de não sentir essa saudade que voltará a alojar-se no peito, indefinida e infinitamente. O cabide que nos sustenta na expectativa do regresso. 

[Publicado no jornal Noticias dos Arcos de 04 Agosto 2010]

terça-feira, 12 de julho de 2011

A indiferença

Há um homem que lê contos em voz alta num comboio. É de manhã bem cedo e os viajantes exibem caras de sono, olham o vazio ou miram pela janela a paisagem. O leitor, numa voz colocada de actor, desfia um texto de Herberto Hélder sobre a indiferença. E é indiferentes que os passageiros o ouvem.

Vão pensando no trabalho que os aguarda, arranhando o dia que começa com um olhar apático. Ninguém quer saber do esforço que o homem faz para se ouvir na barulheira da viagem. A ninguém sensibiliza a circunstância de um completo estranho se dar ao trabalho de embalar a manhã de quem madrugou para apanhar o comboio.

Evita-se o contacto directo com o leitor, olhando-se de esguelha para os seus sapatos, as suas unhas, o boné que lhe aconchega a cabeça. Há quem tenha alguma pena deste homem, sozinho no meio do corredor, encostado ao rebordo de um banco para se equilibrar no bambolear da carruagem. E há quem nem o tenha visto no absoluto desinteresse que a rotina diária alimenta.

É com esta mesma indiferença que é encarado o mendigo de barbas brancas que, sentado em frente a uma loja de roupa cara, pede esmola com um sobretudo roto e sujo. Na apatia olha-se o mais possível em frente evitando confrontar o olhar com o sem-abrigo que dorme, com a cabeça enfiada num caixote de papel, mesmo à entrada de uma loja de decoração.

É na indiferença pelos outros que corre a vidinha de todos os dias! As horas preenchidas no mesmo passo apressado, na contagem dos minutos que faltam ou que passaram, na lamúria pelas contas que se acumulam, os salários que não engordam e os governos que se repetem desgovernados. Com o rolar monocórdico do comboio, flui o queixume inconsequente.

Andamos todos um pouco adormecidos, ensonados por dentro e por fora. Olhamos com desdém o rico que esbanja o tanto que não temos e maldizemos o pobre que nos perturba com a sua miséria. Miseráveis vogamos na dormência das regras sociais, pensando sempre no que se pode ou não dizer, no parecer bem... Mas não queremos saber da dor alheia, da tristeza ou do sorriso de quem se senta ao nosso lado no comboio. Desviamos o olhar quando o passageiro em frente nos olha e olhamo-lo quando desvia os olhos de nós.

É um mal que se alastra como bolor pelas almas, que as torna intolerantes ao contacto e que as leva a apertar as mãos, num cumprimento, como quem segura um bule quente com dois dedos. É o aperto de mão de quem não se compromete. De quem não quer saber do carácter ou da moralidade e só quer ver os novelos do seu umbigo.

Nesta indiferença multiplicada surgem os doutores e engenheiros com ideias milagrosas para o país! E há fome e há desemprego e há desespero e oferecem-nos um Aeroporto para alimentar a esperança! Temos pontes novas, rotundas a pacote, cavalos sem patas e senhores feudais de chicote comandando-lhes o trote, alheios ao facto de não poderem dar um passo sequer.

Ninguém quer saber se há quem não tenha pão na mesa ou uma barraca ao menos para se abrigar do frio. Ninguém quer saber se um velho tropeça e parte a testa no passeio. A ninguém interessa o que aquele homem lê em voz alta na carruagem. Seria demasiado incómodo perceber que aquela história sobre almas sós que a ninguém interessam é também sobre nós.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 17 Janeiro 2008]

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O culpado é o dinheiro!

- Eu se puder faço tudo para prejudicar o estado e trabalho para o estado! 

A frase assim deitada ao ar, na pureza da sua verdade, implode acima do burburinho do comboio. Na cara de quem a solta nenhuma vergonha nem sentido de culpa. O português típico caracteriza-se pela chico-espertice e a frase que ouvi da boca de um desconhecido só espanta pela sua assunção em público (bem portuguesa é também a hipocrisia!). E se nos insurgimos contra os que fogem ao fisco, contra o mau serviço da Função Pública e os tachos e padrinhos e afilhados, sabemos no íntimo que seríamos capazes do mesmo, isto se não estamos já dentro do nefasto sistema prevaricador.

Um estudo recente indicava os portugueses como recordistas na fuga aos impostos na Zona Euro. À nossa frente só os eslovacos. Só não fogem os que não podem – os pobres de nós que ganhamos menos. E com os recentes aumentos no IVA, só se pode esperar o crescimento da economia paralela que já representa um volume de negócios da ordem dos 33 mil milhões de euros. Se esses trocos contassem no saldo da crise…

O Estado é uma entidade abstracta, assim uma espécie de padrasto tirano! Quando é hora de exigir os direitos constitucionalmente consagrados cá estamos todos para pôr a boca no trombone. No momento de apresentar contas dos deveres que cabem a cada um de nós só damos convictamente o lamento por a isso sermos obrigados. Esta coisa do Estado Social só faz sentido na medida em que nos beneficie e desde que não nos vá demasiado ao bolso.

“[…] O culpado é o dinheiro, sempre o dinheiro: tê-lo ou não tê-lo, enquanto subsistir, ninguém se salva”. Cesare Pavese escreve-o n´A Lua e as Fogueiras, onde dita ainda que a miséria “animaliza os homens”. Já sabemos o que nos espera na pira da crise dos próximos tempos.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Do Angélico sonho ao tédio

Lá se foi Angélico Vieira para o reino dos céus! É uma morte que me entristece na medida em que a morte é sempre desoladora, seja a de quem for. Recorda-nos a nossa própria mortalidade.

O cantor/actor não fazia parte da minha lista de admirações ou de gostos e não lhe sentirei a falta. Para os que gostavam dele o seu desaparecimento prematuro pode ser mais trágico do que a morte de um familiar próximo. É a morte de um sonho! A perda de um pouco da esperança e da magia que devem ter os dias.

Dos meus idos 14 anos tenho a imagem de cinco miúdas a chorarem desalmadamente a pretensa morte dos New Kids On The Block num acidente de aviação que nunca se deu (para desânimo de muitos!). É uma memória que lembro com graça e com o rubor do ridículo, mas a dor era então autêntica. Aqueles rapazes que nunca teríamos hipóteses de conhecer (e já o sabíamos naquela altura) representavam a ilusão de um mundo perfeito. A fantasia consumada do príncipe encantado. Perdê-los seria encontrar no lugar do sonho o terrível vazio da realidade cinzenta e ordinária e dos putos borbulhentos e desinteressantes. O tédio da vida dos comuns mortais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Na linha do fim do dia...


Há dias o comboio atropelou uma pessoa, uma chatice, pensamos todos os passageiros na pressa de chegar a casa após mais um dia de trabalho. Preocupados com o atraso que o incidente causaria, não nos ocorria pensar na pessoa decepada ao meio nos carris.

Foi só no dia seguinte que soube que tinha sido um homem o atropelado, casado, pai de um filho, confirmando-se que não tinha sido um acidente, mas um suicídio. Na mesma altura descobri que era alguém com quem me tinha cruzado e que tínhamos amigos em comum. E aquela morte nada acidental passou a ter um outro sentido.

Este homem era uma espécie de visionário da Internet, um génio para alguns, um louco para outros, simplesmente um chato para tantos. Pelos blogues encontram-se testemunhos falando daquilo que parecia um desfecho inevitável. Era uma alma intranquila e escolheu matar-se atravessando-se na linha do fim do dia que nos devolvia a casa. Terá sido a velocidade do nosso cronómetro de vida a mata-lo?

Na pressa do dia-a-dia nunca há tempo para nada! Corremos de tarefa em tarefa, de hora em hora com a sensação de que tudo está por cumprir. E esquecemo-nos muitas vezes de olhar interessadamente para quem nos está próximo, recusando ver as marcas de dor, o desalento. Centrados no nosso umbigo, nas contas por pagar, no trabalho, nos encargos comezinhos, resta-nos a confortável indiferença e é só isso que estamos dispostos a dar aos outros. Porque todas as nossas dificuldades nos parecem mais sérias e complicadas do que as de outrem, independentemente de ser verdade ou não.

Não nos lembramos - abafamos por conveniência - que o mais importante são as pessoas, aquelas que amamos, e que o nosso papel na terra passa também por fazer felizes os que tantas vezes contribuem para as nossas alegrias e tristezas. Não são os desconhecidos que nos ferem, mas os que nos atiram para o contentamento ou para o colo do conforto da pertença. A dor e o amor aninham-se sempre nas mãos de quem amamos. E são tantas as vezes em que nos magoamos mutuamente, disparando todas as raivas e frustrações, os cansaços e as tensões, todo o mal que nos aflige e que guardado no peito nos mataria. Alguns sucumbem mesmo a esse peso, não sabendo cumprir os instintos primários - gritar, chorar, abraçar.

A ideia de se meter à frente de um comboio já terá surgido a mais do que àqueles que a põem em prática. Quem nunca pensou nisso não percebe como é que se pode escolher uma morte tão violenta. Só imaginar um corpo esmagado nos trilhos da linha já dói! Quando alguém se decide a acto tão brutal será por padecer de uma dor maior. E há dores que porventura ninguém, nenhum ombro acolhedor ou antibiótico podem curar.

[Publicado no jornal Notícias dos Arcos de 25 de Abril de 2009]

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ministras das causas perdidas

Paula Teixeira da Cruz e Assunção Cristas são as duas mulheres da praxe no governo de Passos Coelho. O novo primeiro-ministro inova com o executivo mais jovem de sempre, mas repete o velho hábito de não se apostar nas qualidades femininas.

As duas escolhidas são ambas formadas em Direito e esperam-nas assuntos desde há muito tortos.

Paula Teixeira da Cruz assume o ministério da Justiça com o pesado fardo de credibilizar o poder judicial, além de dirigir as necessárias reformas no sentido de uma Justiça menos morosa e mais eficaz na aplicação da Lei. Isto num país onde candidatos a futuros juízes apanhados no “copianço” são primeiramente premiados com um 10 de nota e, posteriormente, depois do caso divulgado nas televisões, beneficiados com a repetição dos exames. Quando é a própria magistratura que confirma que o crime compensa, está tudo dito!

Assunção Cristas é a super-ministra da Agricultura, do Ambiente, do Mar e do Ordenamento do Território. A ex-professora universitária de apenas 36 anos terá que provar o que vale em áreas praticamente esquecidas nos últimos anos. As medidas tomadas no âmbito de vertentes tão importantes da vida sócio-económica do país vêm sendo meros rendilhados sem uma estratégia sólida e concreta. Logo se saberá se ela terá visão para alinhavar esse fundamental novelo de acção.

Mas numa altura de profunda crise, e com a necessária contenção financeira, não se poderá esperar que venha das mãos de Assunção a salvação para o tecido agrícola produtivo do país ou para o renascimento do interior. Isto depois de sucessivos executivos que ignoraram por completo o definhamento da agricultura e a deserção dos jovens das aldeias serranas e que nada fizeram para defender uma das actividades por excelência de um país à beira-mar plantado. Na verdade, pescadores e agricultores são espécies em vias de extinção! E não se augura uma poção mágica para que de repente as gentes corram em força de volta aos campos e aos barcos.

Dos ministérios do Ambiente poderemos eventualmente esperar mais ventoínhas eólicas espanholas nos montes, de resto a escassez de dinheiro passará, como sempre, as questões da protecção do planeta para segundo plano. E quanto ao Ordenamento do Território, parece missão impossível ordenar o que há tantos anos vem sendo desordenado!

Não é a qualidade e a aptidão das senhoras ministras que está em causa. O problema é a pesada herança de negligência que carregam dos seus antecessores. Ingrato presente o de Passos Coelho!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Super-mulheres


Há uma filósofa francesa, Elisabeth Badinter, que está a causar polémica no seu país por defender no livro "O conflito, a mulher e a mãe" que as mulheres dos nossos dias são vítimas de uma «revolução silenciosa» que trouxe um retrocesso nas mentalidades, obrigando-as a abdicarem da carreira para serem super-mães. Às mulheres portuguesas exige-se-lhes que sejam super-mulheres!

Não podendo abdicar da carreira pelos filhos, mesmo que o quisessem, por causa do baixo nível dos salários e da falta de apoio do Estado para o efeito, a portuguesa mulher moderna não tem que ser apenas uma mãe exímia, atenta, informada, sempre presente, mas espera-se que seja ainda uma profissional competente, pro-activa, com um rendimento sem mácula, e também se conta com uma esposa ou companheira prendada e dedicada, uma dona de casa eficaz e mais, uma figura elegante e sensual. Quantas mulheres numa só!

Diz-se que hoje em dia os homens já ajudam nas tarefas domésticas... Sim, ajudam! Põem o lixo na rua, arrumam a mesa quando os pais lá vão a casa, cozinham na visita dos sogros e lavam a louça no dia de anos dela. A máquina de roupa é o único mecanismo electrónico que não sabem controlar e o ferro de passar é um objecto alienígena que não conhecem! A esfregona é interdita a másculas mãos e a piaçaba um horizonte longínquo que nunca tocaram. Sim, eles vão ajudando, quando lá vão os amigos e é preciso dar um ar de modernidade.

Às mulheres cabe ainda essa responsabilidade considerada menor de coordenar a vida doméstica. O ninho continua a ser domínio quase restrito delas, onde eles vão dando uma mão para segurar as pontas. A elas pedem-se-lhes todos os sacrifícios porque ser mulher é sinónimo de merecido sofrimento desde que Eva trincou a maçã. E elas condescendem, porque é preciso manter a casa e os filhos às costas. E não há verdadeiramente tempo para a revolta. Entre as panelas e a roupa sujas, entre as birras das crianças e os lamentos dos maridos, entre as contas e os trocos que restam, o que fica para elas? A culpa por não serem capazes de fazer tudo na perfeição, como se lhes é exigido. Essa culpa também justiçada no paraíso em todas as Evas do mundo.

A culpa pelos problemas dos filhos. A culpa pelos casamentos desfeitos. A culpa pelas faltas ao trabalho nas doenças dos filhos. A culpa pelas idas ao trabalho apesar das maleitas dos filhos. A culpa pelo guisado esturrado porque se estava a lavar louça e a fazer o arroz ao mesmo tempo. Culpada! Culpada pelos quilos a mais nunca perdidos desde a gravidez. Culpada pelas rugas e cabelos brancos crescentes que não se podem esconder. Culpada perante o empregador que só vê uma mãe que não trabalhará para além do horário por ter que ir buscar a filha à creche. Culpada! Culpada por toda a eternidade pelo pecado original de ser mulher.

[Publicada no jornal Notícias dos Arcos de 04 Março 2010]